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No Ginásio

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Hoje deixei as loiras na escola e segui para o ginásio.
Não devia ter levado o telemóvel, com a desculpa da minha playlist, porque recebi uma chamada de uma amiga e fiz 45 minutos de glúteos, que era basicamente a única posição possível para segurar o telemóvel e continuar a fazer qualquer coisa pela vida.
Tive uma hora no ginásio. Desci aos balneários, tomei banho e fui para o meu cacifo arranjar-me. Disse bom dia à rapariga de fio dental que se secava ao meu lado. Não respondeu.
Inquieta-me sempre a não reciprocidade na simpatia.
Mas cada um escolhe como quer viver. Nisto chega uma rapariga gordinha de sorriso rasgado, diz bom dia, eu respondo com um sorriso, o fio dental fica calado.
Concentrada que estava, desvia o olhar de soslaio e continua a colocar o creme. O cacifo da gordinha era colado ao da fio dental. e enquanto arfava a abrir o cadeado e salta-lhe uma fita grossa para cima da miúda calada. Pede desculpa, meio atrapalhada, meio sorridente. Eu sorrio, são coisas que acontecem.
A miúda do fio dental sacode para o chão, a fita que lhe cai sobre o peito. E suspira. Talvez desejasse a tranquilidade de um ginásio só dela, imagino. Debruça-se para fechar as botas, visivelmente apressada, muito provavelmente para se meter na sua nave e fugir ao contacto com a humanidade. Nisto, a gordinha nervosa deixa cair a toalha presa na porta do cacifo, sobre as costas do fio Dental. Baixa-se imediatamente, rindo de si mesma pela sucessão de trapalhadas. Olha para mim em busca de empatia e eu devolvo-lhe um sorriso grande. Há dias em que tudo nos cai. A miúda do fio dental levanta-se, agarra na toalha com a mão fechada, volta a coloca-la sobre a porta do cacifo com brusquidão e diz: – Estou bem aqui?
Não resisti e respondi-lhe: – Acho que só você é que pode responder a isso.
(Suspirei, igualzinho a ela e fui-me embora para a minha nave).

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Não vivo sem…

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Não vivo sem tempo.
O tempo que vive acima dos ponteiros do relógio, aquela medida unitária que faz parelha com o destino que me compete cumprir.
O tempo dos meus sonhos, das palavras encavalitadas no bico da minha caneta, das imagens que projecto na lente para as minhas memórias futuras.
Não vivo sem sentir o vento a empurrar-me contra os obstáculos de que me faço vida.
Não vivo sem amor desprendido, sem abraços apertados, sem poder dizer aos que gosto o quanto me fazem falta e sem sentir a falta que me fazem os que gosto.
Não vivo sem o desembaraço primário de achar que a vida é uma aventura mascarada de rotina.
Não vivo sem Liberdade, a mesma que dá prazer ao pé descalço, a mesma com que vejo de mãos dadas o tempo fluir, a mesma que me acorda em sobressalto para me lembrar que posso ser tudo.
A liberdade que me engasga os deveres e me acorda os sentidos para todos os momentos de prazer.
Não vivo sem o presente, aquele que é o agora sem a culpa do que poderia ter sido, e sem os complexos de tudo o que já foi.
Não vivo sem canetas, blocos, máquinas, bonés e as bugigangas que se estendem sobre os meus membros com a aspiração de serem tentáculos de mim.
Não vivo sem o colo do copo de vinho onde naufrago a minha poesia, nas noites em que sonho ser escritor. Nem sem os livros que me amarram a 1000 vidas que não conheci.
Não vivo sem música, sem a pauta curvilínea dos acórdãos que fazem banda sonora onde me encontro, onde vou, onde sonho e onde me faço pessoa.
E não vivo sem viagens, aquelas que vão ao fundo de nós, dos outros e do mundo.
Não vivo sem pessoas, os cofres máximos de inspiração, transpiração, fontes com a mácula máxima da vida, cortesãos da minhas letras.
E não vivo sem gargalhadas porque são o compasso mais saudável de existir.

*Enquanto embaixadora da RVCA e a convite da Ericeira Surf & Skate lançarem-me o desafio de escrever sobre o tema “Não vivo sem” ‪#‎naovivosem‬ e traduzi-lo numa fotografia. Falta o presunto:)

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