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É aqui que eu estou

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“Por momentos pensou esquivar-se por entre a transparência da água. Susteve a respiração e mergulhou inteira no quente da banheira. Debaixo de água olhou para cima, empurrou as gotas pesadas com a grossura das suas pestanas e viu tudo igual, tudo turvo, como via à superfície.” IS

É aqui que eu estou nas Casas do Côro em Marialva. Já aqui estive há oito anos quando a Camila ainda não era projecto e a Caetana tinha dois anos. Tenho boas recordações mas não foi delas que vim à procura. Vim ao encontro de mim. E é aqui que estou a escrever à boca da lareira grande, com o tinto sobre a mesa e os dedos em riste sobre o teclado. Claro que já me encheram com uma posta mirandesa, uma sopa de cebola gratinada com presunto, uma entrada de queijo da serra derretido com doce de pimento, uma salada de folhada de bacalhau e coentros e um bolo de chocolate quente com gelado de nata. Tenho uma poltrona de veludo a galar-me a digestão. Mas vou fingir que não sei quem é e prosseguir. A escrita dá me pica, o sono só me alimenta a esperança de um novo amanhã. Até já:)

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Os sonhos são meus

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Nunca quis ou desejei, ter uma filha que se parecesse com aquilo que sou, ainda menos, com aquilo que ainda não sou.
Ou dito de outra forma, com aquilo que sonhei de mim para mim.
Nunca projectei ao redondo da minha barriga a execução plena dos projectos que vou deixando em stand by.
Os sonhos são meus.
Cabe-me a mim a divisão árdua do tempo e o risco de decidir como me quero fazer pessoa. Não me passa pela cabeça deixar sobras dos meus talentos na esperança de as colher maduras num filho. Nem me lembro de alguma vez ter olhado para as minhas filhas à procura das parecenças nas coisas boas que admiro em mim. Quando elas despontam, despontam. Como a graça de um raio de sol num dia carregado de nuvens. Ou os pingos de chuva numa tarde tropical. Ou uma máquina fotográfica a tremer na mão pequena. Ou um poema ritmado escrito com erros repetidos.
E outras graças hão de despontar nelas, que nunca nasceram em mim.
Não ignoro a influência que tenho, sobre o mundo que sonham e a forma como se moldam a partir de mim. Sou fotógrafa e gestora e escritora e conspiradora, mas o que eu gostava mesmo é que elas conseguissem ver a vida sem filtros, que amassem as pessoas inteiras, com todas as suas linhas, desalinhas e imperfeições. Gostava que amassem o belo, sendo a verdade das coisas a beleza na sua essência mais sólida. Gostava que conspirassem muito, para alargar a visão dos factos, para além dos factos em sí. Gostava muito que soubessem construir com as palavras certas, as metáforas que mais se ajustam às suas vidas. E gostava muito, que um dia, quando tivessem filhos, se assim o desejarem, se lembrem que ninguém faz de alguém, alguém, sem se fazer a si primeiro.
E o Mundo precisa disso, de pessoas inteiras. Para os sonhos não virem às parcelas, só porque nos fizemos pequeninos para sonhos maiores.
Mas isto é só um sonho.
E os sonhos são meus.

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Sorte: uma merda.

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Dizem que tenho sorte. E eu fui procurar a definição no dicionário, para saber em bom português, exactamente o que tenho.

Dentro das 13 hipóteses que me dá o dicionário da Língua Portuguesa, houve duas que me chamaram a atenção: 9. Lote de Fazendas. 10. Sorteio militar para determinar, de entre os mancebos apurados, aqueles que serão efectivamente incorporados. Todas as outras (destino, fado, ventura, felicidade) são propriedades que não nego, com excepção feita à fortuna (se por fortuna se entender o dourado das moedas, porque se for o ouro dos cabelos das minhas filhas, sou bilionária).

E o que é que eu sei da sorte que tive, o mesmo que me diz o Senhor Zé da leitaria, Trabalho. A mesma sorte que só no dicionário é que chegou ao pódio antes do suor.

Como não gosto do discurso da vítima, filha menor da família disfuncional, como sei que a tristeza de uma história predispõe para a clemência, e da clemência à brandura, perde-se logo a bravura.

Prefiro dizer que a sorte que tive, se é sorte que é, tem tudo a ver com a forma como encaro, e como me faço à vida. Essa “filha da mãe” indomável que nos diz ao ouvido que podemos ser tudo, e depois não parece dar-nos tudo o que precisamos para sermos exactamente o que queríamos. Talvez um dos bons legados que posso deixar às minhas filhas seja a forma fermentada com que fiz dos meus fracassos a sombra dos meus dias felizes. Talvez lhes possa contar como fui teimosa em escorraçar a tristeza, e talvez lhes possa dizer que nunca me apoderei de nenhuma história do passado, que nunca a embrulhei em trauma, e que nunca a servi como aperitivo antes de mim. Que a maior lição que aprendi veio do sorriso, de fugir da água morna dos dias tristes, das pessoas tristes e das histórias tristes. O que me ensinaram as pessoas que passaram pelas histórias mais tristes foi a esperança que lhes valeu, os dias em que foram felizes e a força que tiveram para o resgate desses dias.

O segredo talvez seja fazer do facto mau, o adubo possível do que é bom. Não é o excremento que fortifica a terra?

E a Sorte? Uma merda.

 

 

 

 

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Cancro (era uma vez)

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A convite da Fundação Rui Osório de Castro, instituição de solidariedade social sem fins lucrativos que apoia a oncologia pediátrica nas áreas da informação e da investigação científica fui fazer uma foto reportagem de um workshop de moda para crianças ao Atelier do designer Filipe Faísca.

As crianças para o qual tinha sido organizado este workshop eram crianças em ambulatório do IPO. Meninas cuja as vidas já tinham sido atalhadas por uma dose gigante de maturidade e sofrimento que dá pelo nome temível de Cancro.
Nunca privei de perto com a doença, quis a vida que até agora fosse poupada do confronto directo com essa mutação cobarde que não se anuncia, nem se faz esperar. Infelizmente, conheci e conheço como toda a gente, pessoas e famílias que foram violentadas pelas várias faces desta doença. Já assisti a mudanças de rota, de destino, de vida e de carácter. Já percebi, sem um assalto à mão armada, o que estas seis palavras em diagnóstico podem produzir num ser humano, enquanto se reproduzem à revelia nos nossos corpos. Todos temos medo.
Um respeito mudo sobre a doença, que cala muitas das nossas vezes a nossa vontade imediata de chorar sobre quem sofre. Todos desejamos. Sentir no colo firme da Esperança que a ciência corre a galope para nos safar.
Meninas com ou sem cancro, são todas meninas.
Tudo o que uma criança ambiciona, sem ambição que lhe dê esse nome, é ser criança em pleno, sem ter que interromper o recreio da vida para brincar às escondidas com a morte.
Dá pena, dá muita pena.
E não encontro palavra mais verdadeira para tudo o que me toma. Comparo-as inevitavelmente com as minhas filhas, sinto-me abençoada. Quero oferecer parte da sorte que tenho aos seus Pais. Penso neles, parte da minha dor alheia está com eles. Não imagino nada mais cruel que a luta pela vida de um filho. Não imagino os depósitos de confiança e amor que são necessários para acordar todos os dias inteiro para lutar.
Imagino que o que sonham os pais a caminho do ambulatório descreve parte das rotinas de que me queixo. Imagino-lhe as saudades de tudo o que é absurdamente normal. No domingo foi o dia Internacional da criança com o cancro mas estava tão cansada do peso do dia absurdamente normal, que não consegui publicar este texto.
Estamos na época do Carnaval, das máscaras e do faz de conta. E tudo o que eu queria, se fosse fada de condão, era que essas crianças não tivessem que se mascarar de nada, que não fosse apenas o de serem crianças.
E que a palavra cancro fosse apenas um reino longínquo, sem mágoa ou sem castigo de que se falasse ao de leve nos livros do faz de conta.

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