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Amamentei as minhas duas filhas

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Amamentei as minhas duas filhas.

Confesso que tive alguma dificuldade na primeira leva, doía-me tudo, sobretudo a minha falta de jeito para cobrir os apetites vorazes da criança. Tive a sorte de ter tido um parto normal sem episiotomia. Regressei a casa em menos de 24 horas, ligeira como uma adolescente, com o peso recuperado e com uma filha nos braços.

Pouco li antes sobre os desígnios da maternidade. Assumi para mim mesma, que a seu tempo brotaria no meu corpo um intelecto de mãe, munido de um instinto maternal, suficientemente sólido, para dar conta do recado. Iria amamentar porque fazia parte do pacote e eu queria um “All inclusive” na minha estreia. Fui das sortudas que querendo, conseguiu. Não pegou de primeira, mas fui insistindo na vocação e a miúda agarrou-se como um bezerro. Sempre que saía levava a minha filha ao colo e sempre que era hora do leite, dava-lhe de comer. Nunca me atrapalhei, nem deixei que olhares pré-históricos me alienassem desse prazer. Como sou muito distraída, a maioria das vezes, não trazia o traje mais cómodo para a arte da amamentação. Mas em vez de me atrapalhar entre alças e botões, esgrimindo os cotovelos como marionetas, desembaraçava-me de preconceitos, colocava a criança sobre o colo das pernas e descobria o peito.

Era a mãe, insubstituível naquele papel, legitimada pela mãe natureza para o exercício e muito feliz. Quando tinha reuniões mais formais, tirava o leite e tentava deixar o bebé ao cuidado de algum familiar. Não o fazia por pudor, fazia-o por conforto para mim e para a criança. Gostava demasiado de dar de mamar, enlaçava-me naquele momento, queria-o desfrutar com carinho. Não me fazia sentido ter milhões de mãos a paparicar-me a cabeça da criança colada ao meu peito, e menos ainda, interromper uma ordem de trabalhos com um bolçar súbito ou um arroto e um “desculpe não percebi”.

Nunca julgarei nenhuma mulher que decida levar a criança, para um qualquer lugar permitido, permitindo a si mesma ser mãe. Nem farei disso escrutínio de parágrafo, porque é para mim tão natural como a chuva em Janeiro. Regressei há uns dias de São Tomé e quando estava na cidade de Neves a fotografar, esta mãe chamou-me e disse: – Branca! Tire uma fotografia bonita a uma mãe a amamentar!

Sorri, foquei e tirei a fotografia. Infelizmente, não tenho no meu arquivo de fotografias uma minha, em pose igual para recordar. Para mim, a amamentação não é apenas uma funcionalidade dada de forma casuística à mulher. É um rio que liga às duas margens: A mãe e o seu filho. Dar ou não dar de mamar é uma questão de livre arbítrio e só à mulher diz respeito. Mas se algum dia for mãe outra vez, hei-de querer tirar uma foto igual:)

http://capazes.pt/cronicas/uma-foto-igual-para-mim/view-all/

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“Diz algo sobre esta foto…”

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“Diz algo sobre esta foto…”
Digo que no BOMBOM se está no melhor bem bom do Mundo. Que estou a escrever um post para vos mostrar em imagens o que as palavras empobrecem e que estou feliz como uma criança na melhor kidzania ao ar livre, que já me foi dada a conhecer. E digo também que tenho um milhão de saudades das minhas loirinhas e que um dia regressarei com elas, a todos os locais do mundo onde já fui feliz. Podia dizer que parece um sonho, mas é mesmo.

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DUAS METADES INTEIRAS

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Cresci numa casa de mulheres, parca em vestígios masculinos, excepção feita à figura mais proeminente da minha infância, o meu avô. A minha avó tinha duas irmãs, a minha mãe, a mesma justa equação. E nós éramos quatro. Debaixo do mesmo tecto, todas as hormonas, diferentes gerações em confluência.

Cresci a ver cabelos a serem penteados, vestidos nos estendais, mãos com anéis, livros de receitas abertos sobre as bancadas, músicas ouvidas em desatino, choros sofridos no vai e vem da paixão. Saturada do universo matriarcal, jurei a mim mesma quando ainda era adolescente, que se exercesse a maternidade, seria mãe de um homem. Não quis o destino quebrar a corrente e, sem ser tida nem achada, fui mãe de duas Marias.

Hoje rio-me com ternura desses tempos de criança. Nunca fui Maria Rapaz, não era o cor-de-rosa em atrofio que ansiava pela gestação de um macho, não era o histerismo pontual que me atirava para a conquista de um espaço mais azul, não era a falta de amor que pedia ao meu universo que se pontuasse com alguma masculinidade. Era a sensação pragmática de que havia um hemisfério a precisar da versão mais simples do ser mulher. Era um excesso de rímel traçado sobre as decisões, era muito salto alto, quando a vida pedia pé no chão.

Com distância, consigo agora perceber como me fiz mulher entre as mulheres. E como a confluência exagerada do meu universo permitiu que percebesse a importância do meu percurso na educação das minhas filhas. Hoje, sei-o na pele, a mesma onde sofri os embates, que ser mãe de uma rapariga é uma missão. E não o escrevo apenas por estímulo feminista, escrevo-o, porque demorei-me a adorar ser mulher. E criei as minhas filhas para que adorassem desde o primeiro dia. Queria que sorvessem, tudo o que era incrivelmente belo e singular no ser no feminino. Quis que nunca atribuíssem o monopólio das qualidades da força e da aventura ao ser no masculino. Quis que fossem coesas, duas partes completas, duas metades inteiras.

Dei-lhes os recursos, os atilhos, os folhos e o romance, mas descalcei-lhes os pés e o feitio, para que tocassem na terra de palmo inteiro e desbravassem sem medo o que não lhes era conhecido. Quis muito que respeitassem o corpo, sem o temer, que o sentissem sem vergonha ou escrúpulo antecipado, queria que a vergonha surgisse apenas quando o erro é flagrante e nunca adiante. Não quis masculinizar a culpa, nem criar ditadoras de um mundo de fantasia. São duas bonecas, pensei. Quero apenas que sejam rijas.

O futuro dir-me-á se lhes armadilhei o caminho ou se fui uma boa ceifeira, de uma colheita coesa, de duas metades inteiras.

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A menina loira que corre descalça no milharal.

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Adoro esta fotografia.
Prende-me. Fixa-me.
De certa forma até a invejo.
Nesta fotografia, eu queria ser a menina loira que corre descalça no milharal.
É fácil pensar que enquanto corre, ela está alheia a tudo…
Mas talvez ela já tenha tudo enquanto corre descalça no milharal.
E eu fotografo, participo com o clique, que congela o que já se fez vida.
E depois olho-a, e vivo outra vez, duas vezes, três vezes, com o orgulho do olhar, a inveja da criança que corre, e a adulta que vê a vida correr no milharal.

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Devo estar a envelhecer (bem).

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Às vezes fico olhar para ti de costas enquanto te afastas, a medir o comprimento das tuas pernas, o teu balançar, num “galanço” tão espontâneo, que se não fosse de mãe querida, era de homem descarado.
Às vezes dizes: – Ó mãe para!
Desculpa-me, por me deter muito tempo fixa no teu rosto.
Amnistia as minhas mãos por se demorarem a sentir o diâmetro pequenino dos teus braços. Perdoa-me se te pego ao colo e se elevo como uma criança pequena, só para ter a certeza que ainda me sobra força para te carregar.
É tão engraçado, porque eu sempre fui rabugenta com as contemplações demoradas de familiares, enquanto exprimiam as mesmas frases:
– Está tão crescida!
– Pareces mesmo a tua mãe.
– Vai ter o nariz do do pai.
– As mãos são iguais às da avó Margarida.
Sempre resmunguei, de mim para mim, que esse comportamento era revelador da idade avançada de quem o proferia.
E dizia para mim mesma, que quando crescesse nunca o faria.
Com o tempo, também eu aprendi, que envelhecer traz o custo dos caldos e das ramelas nas palavras. E se, quando era criança, eu condescendia, era porque havia em todos eles um universo de referências, que me pesava e me afligia. Por isso, quando dou por mim a observar-te de forma demorada e a exprimir de forma antiquada, não é só porque envelheço em caldos e em palavras, mas porque encontro no teu balançar de menina, a criança que eu já fui.

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EU QUERIA…

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Fazia lá ideia do tipo de mãe que ia ser.
Nunca pensei muito como é que iria educar uma criança.
Talvez tenha ajudado à equação, ter sido ainda muito criança quando resolvi ter uma.
E para falar na mais pura das verdades, não me lembro de ter lido um livro só que fosse sobre a matéria, com medo de me ter que virar ao contrário e ficar com a etiqueta de fora.
Para elas, tinha sonhos iguais aos que se efabula quando colocamos o olhar sobre um terreno imaginário onde vamos edificar uma casa.
Queria que fossem soltas como o vento quente, que não tivessem medo das pessoas, que aprendessem que a vida é um diálogo fabuloso que se constrói entre os sonhos e a realidade, queria que ousassem muito, como se em cada fim houvesse um começo de alguma coisa nova. Queria muito que se sujassem, que experimentassem os arrepios de andar descalças sobre o cru da vida, queria que vivessem mais do meu sol, que do consolo da minha sombra, queria que se invadissem sem pedir permissão, que utilizassem o corpo como a materialização imperfeita das suas metas, queria que amassem e perdoassem, com a espontaneidade com que respiram, que curtissem as diferenças que o mundo lhes oferece, sem nunca desconfiar das cores que ainda não conhecem, queria que se sentissem senhoras de si, antes de querem ser donas de outra coisa qualquer.
E queria que percebessem a sorte que têm de ter ao lado quem sonha tudo isto para elas.
E sim, queria que fossem filhas da mãe, na gargalhada, na força com que defendem os sonhos, na garra com que lutam pelo que lhes escapa e na forma como defendem os que ama.
E queria que à noite dormissem sempre tranquilas e que a respiração apenas lhes lembrasse, que tudo o que ainda não foi hoje, pode vir a ser amanhã.
Assim como eu faço quando adormeço, com tudo o que ainda sonho para elas.

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