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Tenho saudades

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Do andar de baixo numa avenida nova, chega-me um cheiro. Detenho-me, pauso-me nas escadas, encosto-me à porta. Há um conforto neste odor, como a almofada amassada do dia em que partiste. Como aquela camisa que amachuca no chão a saudade. É cheiro de mar na grelha, de gordura salgada sobre o carvão, é cheiro de Alfama. É cheiro a Santos. Está me na alma, entranhou-se me na memória, acorda-me os sentidos, puxa-me, recupera-me, exalta-me. Habito numa avenida nova com um cheiro que é velho para mim. Sento-me no patamar das escadas, indiferente a quem passa, acordada apenas pelo sentido do olfacto. E deixo-me transportar como uma quadra que se enterra com força no jarro de um manjerico. Tenho saudades dessa morada onde me achei. E tenho ternura por essa memória que se colhe num cheiro, como o ramo tosco que a criança dá à mãe. Estou aqui sentada. Mas é lá que o cheiro faz sentido.
Tenho saudades tuas Alfama. E não me tenho feito convidada desse olfacto, nem parte desse colectivo de narizes que te inala nesta quadra. Talvez me proteja um pouco da saudade, como um fado morno que se escuta atrás da porta.
Vou deixar passar a festa grande e o corrupio. E quando o cheiro ficar mais perdido, sei de coração, que te vou encontrar, nesse mesmo patamar de saudade onde hoje me sento.

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#Atévelhinhos

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Já me chamaram noiva intermitente.
E já nos rimos disso juntos.
Estamos noivos.
E ainda que deixe o anel repousar na mesa de cabeceira, tenho o coração em ti. A minha jóia boa é o que sentimos um pelo outro. É essa que quero polir todos os dias, é essa certeza que não quero atirar para as intermitências da vida.
O amor é jogo duro, também. Nem todos os dias são fáceis, nem todos os dias são ágeis. Vives com uma miúda hiperativa ao teu lado, que tem duas loirinhas turbinadas agarradas às leggins rotas da mãe. Quando chegas a casa, tenho a certeza que ao contrario de poisar, tu levitas no furacão de nós. É sempre tão divertido, quanto cansativo, tão diferente, quanto exigente. Visto de fora parece um sonho, visto de dentro consegue ter contornos de pesadelo alucinado. Tens sabido manobrar connosco esta aventura, a noiva intermitente, as loiras com déficit de atenção, as minhas insónias, os meus projectos, as minhas conversas sem fim e nós. Nunca prometi que ia ser fácil. Nunca me pediste que fosse diferente.
Estamos noivos. E um dia vamos casar.
E até lá, vamos continuar a rir de tudo juntos. Na nossa varanda virada a poente, com o nosso tinto e o nosso olhar demorado.
E a única dívida que teremos com a intermitência é a permanência de nós.
‪#‎atévelhinhos‬

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Não sei bem quem é que consegue

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Não sei bem quem é que consegue. E ainda menos quem tenta. Mas não posso ficar senão feliz por quem consegue perceber na unidade do tempo a maior riqueza do homem. Nunca fui rica no sentido monetário do termo, tudo o que hoje tenho foi minha conquista. Quando quis casar comprei com o meu dinheiro o meu vestido de noiva a prestações. E trabalhei muito enquanto estudava para comprar, também a prestações, a minha carta, o meu primeiro carro, a minha primeira renda e os meus primeiros vícios. Não gosto do discurso gabarolas da infância sofrida, mas é bom recordar o que conseguimos, quando achávamos que não tínhamos nada, para poder saborear à séria tudo o que já temos. A verdade é que não me falta nada. E isso é tão bom de pronunciar, que o melhor mesmo é dar-lhe a volta sem medo e dizer de coração cheio que tenho tudo. Temos muito medo de afirmar plenitudes de felicidade, não vá a vida esnobar sobre os sonhos futuros. Mas o que eu mais aprendi nas pequenas conquistas da vida é a não ter medo de exaltar a felicidade dos dias. E assumi-lo sem escrúpulos como um agradecimento enorme à vida. Podia dizer que vivo para pouco. O meu pouco que é tudo: As minhas filhas, as minhas viagens, as minhas palavras, os meus vinhos e petiscos, o meu Pedro, o pai das minhas filhas, as minhas irmãs, os meus amigos maduros, as minhas amigas loucas, os meus livros e o meu tempo. Tenho o coração cheio, uma vida cheia e uma cabeça cheia de sonhos que combinam tudo isto. E o mais que tenho, para além do amor que é terreno fértil, é Tempo.
O tempo que resgatei à vida para poder viver com à máxima intensidade cada uma destas paixões. Sim, acho mesmo que a perseguição dos sonhos me tornou uma mulher rica. E a consciência disso, uma mulher sã. Podia dizer que tive sorte mas seria uma batota enorme sobre o esforço. A sorte que tive foi a sobriedade prematura de perceber no Tempo a unidade máxima de realização. E pressenti-lo a tempo, do tempo, que precisava para mim.

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Este post é para o João Carvalho.

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Este post é para o João Carvalho.
Provavelmente desconheces, mas a minha filha Camila, que já tem grandes dificuldades em concentrar-se nas aulas e nos trabalhos de casa, achou na paixão recente que nutre por ti, um alibi perfeito para riscar todas as folhas dos cadernos com o teu nome.
Hoje fui acordada de madrugada, de um sono profundo, só para validar o coração que te quer entregar no dia dos namorados, e a minha filha nunca foi criança de pensar no longo prazo.
Diz que quer que eu fale com a tua mãe para marcar um encontro e não se importa de partilhar-te com as amigas, desde que sobre um pouco de amor para ela. Todas as frases começam com “Mas o João”, “E o João”, “O João também”. Se antes tinha direito ocasional a um retrato meu, agora é raro, para não dizer inexistente, porque não há marcador, pincel e lápis que não esteja ao serviço da paixão.
Ao principio achei graça, só porque é raro vê-la manifestar um interesse continuado por alguma coisa.
Mas entretanto já passaram 3 semanas e hoje de manhã quando fui buscar-lhe o afia, lá estava o teu nome escrito num dos cantos dobrados do caderno, em formato de segredo.
Tudo bem João.
Estamos habituadas a pragas e somos miúdas de grande paixão.
Mas não me roubes todos os cantos, de todas as folhas, porque quando eu não acho conforto na folha em branco é lá que me aninho.

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CADA RELAÇÃO ENCERRA A SUA VERDADE

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Não sei se os homens e as mulheres vêm de planetas diferentes. Os que conheci, partilharam todos o calor do útero de uma mulher. Sei que por norma, nós mulheres falamos mais, se calhar demais. Ou falarão eles a menos, e do menos que nós queremos ouvir.
As melhores relações que conheço são participadas dizia uma senhora bem posta no café, mas não sei bem o que é que isto quer dizer. Acredito na democracia de uma relação, o termo faz-me sentido. Sou uma liberal e gosto de me privatizar na intimidade com a pessoa que amo. Mas preciso que me deixem respirar entre as braçadas da vida e os abraços apertados.
Às vezes, como todo o eleitor experimentado gostava de mergulhar numa monarquia de cordel. Mais precisamente, na pele da princesinha enfastiada, que só tem que escolher a cor do recheio do éclair.
Queria um décimo da autoridade que exerço sobre as disciplinas da minha vida.
O sonho de habitar numa corte….e só ser invadida, de quando em quando, pelo calor reconfortante das decisões já tomadas.
E queria tanto, mas tanto, que os eleitos do nosso coração, percebessem que há um Pause para cada Play, que a forma esfuziante com que exibimos os nossos feitos e as descrições adjectivadas das nossas acções infinitas, não eliminam a necessidade do cetim almofadado e da gargalhada do bobo.
É uma sensação tramada, chegar ao alto ermo da montanha e ter inveja do pastor deitado no seu sopé.
Fica a parecer que a senhora liberal e “bem-posta” do café curto, quer voltar à caverna burguesa da princesinha.
Quando tudo o que ela queria era ter um décimo da autoridade exercida sobre as disciplinas da sua vida.
Cada relação encerra a sua verdade.
E os universais são tão perigosos como qualquer frase que comece com “ele era ideal para ti…”.
Talvez a verdade da minha esteja naquele café liberal bebido como um bobo, no sopé daquela montanha à sombra de um castelo, na companhia acetinada de um príncipe com ideias de pastor.
Ou talvez…eu queira apenas um décimo da autoridade que exerço sobre as disciplinas da minha vida.

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DIA DA MÃE – “Quando virei mãe”

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Fiz uma parceria com a KNOT para o dia da mãe, desenhei três t-shirts, mas mais do que isso, personalizei-as com um texto meu, desses que saem do coração sem filtros.
Assim no verso de cada t-shirt da mãe há um texto para desvendar, esse mesmo que partilho hoje com vocês:

Quando virei mãe. Virei viagem. Virei desdobrável.
Virei piegas, maricas, heroína invencível das minhas rotinas.
Virei penso rápido e ligadura.
Virei água na fervura.
Virei carnaval em permanência.
Virei doce demência.
Quando virei mãe, virei risca, virei curva.
Virei alma plena e pessoa turva.
Virei me do avesso, e ao contrário.
Virei cozinheira e virei armário.
Virei quando queria, quando podia, quando sabia e sempre, quando devia.
Quando virei mãe, virei fluorescente, mãe foguete.
Virei pediatra, curandeira, amiga e feiticeira.
Quando virei mãe, virei leoa, patroa, criatura curtida,
Virei mulher dividida.
Até virar mãe tudo me parecia direito, até ser mãe tudo parecia perfeito.
Mas quando se vira mãe, não há nem “se´s” nem “talvez”.
Porque quando virei mãe,
virei de vez.

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Tão desconcertante como o teu feitio

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Estavas muito concentrada na mesa do teu quarto…
Há demasiado tempo para ser fruto de uma inspiração para o Estudo ou um ataque súbito de consciência para com o Conhecimento.
Aproximei-me, espreitei por cima do teu ombro e vi que estavas a escrever numa tabela. Mas como tens uma letra tão desconcertante como o teu feitio, não lhe consegui adivinhar o significado nos caracteres.
Perguntei-te o que era. Viraste-te para mim e com o ar mais sereno do mundo, disseste-me que era uma tabela comparativa.
Apontando-me explicaste:
Na coluna do X os nomes dos rapazes, na coluna do Y os pontos a favor e os pontos contra cada um dos rapazes. Devo ter feito um ar estranho, mas não tão estranho, que achasses que quando era catraia era diferente de ti, porque quando te viraste para concluir o exercício disseste:
– Ó mãe, não me digas que nunca fizeste este exercício?
(se ela imaginasse os dissabores que me teria poupado uma inteligência lógico-matemática sobre um coração poético)
Respondi:
– Ainda faço minha filha. Faço sempre que é preciso:)

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