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Bom dia!

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Quando se faz o que se gosta, torna-se difícil explicar às crianças que até chegar a esta fase, tive que levar com um milhão de coisas que não gostava.
Por isso, quando a Camila insiste em dizer-me que o que mais gosta da Escola é o recreio.
Só posso imaginar que vá dar uma excelente vigilante:)
Bom dia!

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E TUDO O VENTO LEVOU…

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Bom dia!
Mesmo depois de ter começado a manhã a ser expulsa da biblioteca da escola por estar a falar ao telemóvel com a professora da minha filha.
Passo a explicar…Ontem cheguei a casa às 20h. As loiras não tinham tomado banho e era hora de jantar. Estavam serenas no sofá, como se a casa fosse apenas um prolongamento do recreio com mais almofadas. Respirei antes de entrar em casa, e só não suspiro mais alto, porque preciso daqueles segundos de ventilação pulmonar para me fazer à auto-estrada da vida doméstica, com enfoque muito particular, neste belíssimo capítulo da maternidade e seus desafios.
Avancei com o jantar, tomam banho a seguir, pensei. A loira mais velha faz fita porque a sopa está doce, a mais nova resmunga que está quente. Os cabelos misturam-se com os fios de esparguete, entornam-se goles de água sobre o prato fundo. Siga.
Quando finalmente as consigo deitar, liga-me o pai pesaroso a querer matar saudades. Ainda a meio da digestão de tudo, corro para as mochilas. Mãe que é mãe exige e controla. Enquanto não lhes reconhecer responsabilidade suficiente para não ter que encontrar pedaços de carcaça dentro do estojo, vasculho e vasculharei, sem qualquer afeição ao verbo.
Lá estava o caderno de matemática da Camila. Tinha ido ao Apoio de estudo a seguir às aulas mas não havia um exercício que tivesse certo. Olhei para o exemplo de cálculo, habituada às operações matemáticas na vertical, tive dificuldade em perceber o desdobramento das dezenas, para voltar a somar às centenas e finalizar o cálculo. Pensei googlar mas eram 23h e estava podre. Amanhã é outro dia, pensei. Como a última frase da Scareltt O´Hara em “Tudo o vento levou”.
Só que aqui o vento, deixa quase tudo no meu colo.
Chegamos às 8h ao colégio, encaminhámos a Caetana, e seguimos para a biblioteca para tentar terminar os trabalhos, longe da confusão do recreio. Olhei novamente para os cálculos, para a folha esborratada de esforço entre o lápis e a borracha, e achei mais prudente, ligar à professora a pedir auxílio, só para engrenar com uma certa mestria no cálculo da operação.
Calculei mal, porque me esqueci que estava na biblioteca, e embora ciente de que éramos as únicas almas, não se pode falar ao telemóvel, como é óbvio. Fui repreendida com firmeza pela guardiã dos livros. Pedi desculpa, levantei-me e fui para a porta aprender a fazer contas, deixando a Camila no conforto da pausa. Quando me sentei faltavam 5 minutos para o toque. Apeteceu-me tanto fazer por ela. Senti-a completamente perdida. E eu também. Tão esborratada como aquela folha de papel quadricular.
Estava ciente de que ela ia ter teste dentro de uma hora, e não tinha a mínima noção do que ia fazer.
Apertei-lhe a mão com força, beijei-lhe a testa, ajudei-a arrumar o estojo e saímos. A caminho da sala, ajoelhei-me à sua altura e disse-lhe:
– Camila, hoje o teste não vai correr bem. Mas “amanhã é outro dia” e nós vamos aprender a fazer essas contas.
Quando a deixei na sala, já não sei se acreditava na força da expressão do amanhã. Que é o que acontece quando o Hoje nos embate assim.
E tudo a mãe levou…

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“Quando eu for mãe”

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As minhas filhas têm diferentes opiniões sobre a maternidade. Entenda-se com isto que não me refiro à forma como as educo ou às questões motivacionais ou emocionais, que estiveram por de trás da sua origem, inquestionável, por razões eco-sistémicas de sobrevivência em família:)
Até porque posso assegurar que o Amor próprio cá por casa, supera o próprio Amor.
Quando falamos de maternidade e são mais elas que eu, é sempre sobre os filhos que elas desejam muito que eu tenha, e os filhos que elas um dia vão ter.
Quando se põe a fantasiar sobre os irmãozinhos e as maninhas usam grandes folhas A4, onde escrevem, em forma de tabela, os nomes dos meus futuros filhos. Partindo sempre do pressuposto generoso de que são gémeos.
A Caetana fala muitas vezes “quando eu for mãe” isto, “quando eu for mãe” aquilo. Imagina a casa, a dinâmica, o marido, as faces das crianças, os nomes, e quando está mesmo muito inspirada, fantasia-lhes o carácter e faz simulações in loco do que seriam as suas reacções às birras, pedidos ou questões, que os seus filhos, com inteligência suprema teriam para lhe colocar.
A Camila por outro lado, que reconhece o seu estatuto de criança, filha e mimada, nutre um profundo temor e respeito por esta santíssima trindade, afirma desde sempre, que não quer ser mãe ou ter filhos de qualquer espécie. É peremptória nesta conversa e não admite qualquer excepção, marketing ou diálogo em torno das virtudes de ser mãe.
Quando lhe pergunto Porque é que não quer ser mãe?
(Sem qualquer objecção à decisão, que entendo, faz parte do uso fabuloso de ser uma mulher livre).
Ela responde-me: – Dá muito trabalho.
Andava eu com medo de a traumatizar como mãe, quando ela já o antecipa no exercício de ser filha.
Toma lá sangue do meu sangue, é para aprenderes:)

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Lá fomos nós para a escola de motorista

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Comecei a segunda feira em grande.
A minha mão na mão papuda da Camila. Cabeça de mãe virada para trás, a acompanhar o andar lento, passado e elegante da Caetana que atravessa a passadeira como se pousasse para um anúncio da Donna Karan NY. Ela era madeixa alçada sobre a brisa à esquerda, ela era olhar atirado com desdém à direita e toda uma fila de carros à espera. Ela era a mãe desesperada com as calças de ginástica vestidas, um frio de rachar nos tornozelos e duas mochilas na mão. E o pigmeu da montanha a reclamar: – Não posso chegar atrasada…
Chegamos ao carro, despejamos as loiras e as mochilas lá para dentro. Entro no carro, rodo a chave e nada. Sem tempo para conjecturas sobre a mecânica ou o fim prematuro da viatura, sacam-se as loiras do carro. Abeiro-me da estrada e quando dou por mim, já a Caetana estava dois metros atrás a mandar parar um táxi, com o mesmo jeito nova iorquino da série: Dois dedos no ar, calcanhares levemente erguidos e gémeos em levitação. Entramos com as mochilas da Violetta, os cestos da comida e as loiras. Indiquei a direcção e lá fomos nós para a escola de motorista. No interior da viatura, a Caetana de perna cruzada elogia-lhe o conforto, enquanto a Camila passa as mãos pelo acento do motorista forrado a imitação de lã e diz:
– Que bonito mãe, que fofinho, temos que comprar um igual.
Chegadas à escola. Mochilas nas costas, um cesto em cada mão e um beijo rápido na testa: – Boas aulas filhas da mãe!
Aceno da Camila, resposta da Caetana: – Adeus mãe!
Vou dizer à professora que viemos de táxi.
E eu vim para casa chamar o reboque.

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No epicentro do recreio

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Fui à escola das loiras à hora do almoço para entregar uma surpresa à Caetana e dar um beijo de saudades na Camila. Cheguei bem no epicentro do recreio, na debandada da hora do almoço. Eram tantas as crianças que não conseguia vislumbrar as minhas, era tanto o barulho que o meu cérebro não conseguia comandar os olhos numa busca e os meus membros estavam tão intimidados que não se queriam mexer. Ingénua, ainda pensei que se me quedasse muda e hirta ia ser descoberta pelas crias, amparada pelos seus abraços pujantes, sacudida pelos beijos da saudade. Passaram-se minutos e nada. Iniciei a busca ocular, movi o corpo por entre os seres pequeninos. De repente, pareciam-me todas loiras, todas elas. Vi uns adultos iguais a mim, quedos e hirtos mexendo o pescoço em cata-vento. Sorri como quem solidariza, não estou só, pensei. Passaram-se mais uns minutos quando ouvi uma voz. – Mãe!
O meu descodificador acusou um laço parental naquela voz, a minha cabeça virou-se e o meu coração deu sinais de impaciência. Uma já cá canta, pensei. Não, não pensei. Abracei-a com exagero, percebi-o no olhar das amigas e no desatar escorregadio dos braços. O recreio é o palco das crianças, demonstrações afectivas sim, mas devidamente enquadradas e com discrição.
Eu respeito. Muito. Também já fui miúda pequena e apesar da minha mãe não ser dada às visitas surpresa na hora do recreio, imagino o meu embaraço se fosse. Aquele abraço exagerado que a mãe aperta com culpa na semana que é do pai. Percebo-te.
Mas tinha saudades tuas. Disse “Olá” às tuas amigas com muita simpatia mas sem grande exagero. Sei bem, que tudo o que tu queres nesta idade é que tudo seja normal. Mãe normal com saudades normais. Despedi-me com um beijo normal, disse que te adorava, como faço normalmente. E parti em busca da cria menor. Quanto mais pequeno mais difícil. Como já estava com a maternidade em red light vi-te logo. Corrias como uma seta atrás de um menino. A tua gargalhada era tão boa que até parecia que os dentes de leite iam à frente do corpo. Estiquei o braço para te agarrar. Percebeste que era eu e travaste o passo. Voltei a descer e abracei-te com força as pernas. Já não fui a tempo de ser normal. E como faço normalmente, disse que estava cheiaaaaaa de saudades tuas. Sorriste sem grande reciprocidade de gesto, a tua cabeça vigiava o movimento dos teus pares. Estavas num jogo da apanhada, mas não para ser apanhada por mim. Dei-te um beijo grande e respirei o cheiro dos teus caracóis. Levantei-me e saí do recreio com um andar normal e um coração saciado. Quando estava quase a dobrar a esquina, oiço a voz da Cria grande: – Mãe!!
Vieste na minha direcção, abraçaste-me as pernas e quando ia curvar a cara para me aproximar da tua cabeça, olhaste-me nos olhos e disseste baixinho, mas com muita força: – Amo-te.
E eu sai do teu recreio anormalmente feliz.

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– Ó mãe…

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– Os nossos bisavós são aqueles que já morreram?
Pergunta-me a Camila no carro.
– Nem todos os que morreram são nossos bisavós. Mas sim, os bisavós da Camila já morreram.
– Quem eram os meus bisavós? Insiste a Camila.
– São os avós da mãe e do pai. Respondi.
Não sei se as perguntas se ficavam por aqui. Mas quando falou nos bisavós bateu uma saudade das grandes do meu. Eu apanhei o isco e descosi sobre o tema, divagando, como se divaga em paixão na vida, quando alguém nos pergunta sobre alguém que amámos muito (e que já partiu).
– O bisavô da Camila, o meu avô, foi o homem mais importante da minha vida. O meu avô foi o meu pai verdadeiro. O homem que moldou o meu carácter, a pessoa mais boa que já conheci.
A única, cuja a ideia da ausência em vida já fazia doer. O avô foi o homem que me levou à igreja quando casei com o pai. O homem que ensinou à mãe o que é Amor, e que todos os dias me acorda para o lado bom da saudade. O homem que encheu as medidas do meu coração. Tenho muitas saudades do bisavô da Camila, mesmo muitas…
A Camila ficou calada. No silêncio do carro, ganhei consciência que me alongara na adjectivação porque a humildade não deixa na pobreza da linguagem aqueles que mais amamos.
Sorri de mim para mim. E quando já estava a estacionar o carro, a Camila pergunta a medo:
– Ó mãe…eu tenho que gostar das pessoas que não conheci?
– Não meu amor. Nem mesmo de todas a que conhece.

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Liberdade não filtrada

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Gosto muito da liberdade não filtrada que existe no diálogo de uma criança. Não fosse a minha linguagem, tão extrovertida, como o meu carácter, e tenho a certeza que lhes ficaria a galar as palavras soltas, no soslaio calado dos impulsos contidos. Mas cá em casa, usa-se e abusa-se da palavra solta, mais que à solta, mesmo. Isto tem o custo intimidatório da cerimónia, a perversão de alguns princípios básicos de educação que tento implementar e alguma moléstia pontual no convívio social entre conhecidos, mas à parte disso é tudo saúde. Portanto, não se reprime, repreende-se apenas quando é caso disso. Isto porque sei, que no interior desta selva de sentidos ao desmazelo e de acne gramatical há uma franqueza tão doce quanto crua, que faz com que os preliminares do meu “xiu” sejam uns largos segundos de prazer.
E ontem na cozinha, à hora louca do jantar das crias, fui chamada pela voz rouca da Camila.
– Mãe, Mãe! Mãe!
– Simmmmmmmm! Camila!
– Mãe! Mãe! Mãe! Olhe para o Pedro.
(O Pedro é o namorado da Isabel:))
– Diz Camila, o que é ?! Estou a olhar!
– Mãe! Mãe! Mãe! Olhe para o Pedro.
– Sim Camila, estou a olhar para o Pedro.
– Olhe Mãe, olhe bem!!!
– O que é que ele tem?
– Tem tudo.

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Um canino vale o mesmo que um molar

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Tenho a sorte, muito trabalhada por ambos, de ter uma relação para lá de boa com o pai das minhas loiras.
Mas Custódia partilhada, é custódia partilhada. E ainda que falemos quase diariamente sobre os mais diferentes aspectos da educação das miúdas, há sempre situações imprevistas que nos escapam. E outras tantas, que parecem tão ridiculamente pequeninas que nem perdemos tempo a falar delas.
A fada dos dentes foi um desses assuntos. Espertas, as loiras garantem que os dentes que caiem em casa do pai valem 10 €, contra os 2€ por dente que se praticam cá em casa, independentemente da sua posição na boca. Um canino vale o mesmo que um molar. Assimilada esta realidade, percebo agora que a fada dos dentes do meu lar está em situação de precariedade, enquanto há uma fada e duas loiras sortudas que florescem lá para os lados do pai.
E também consigo estabelecer alguma relação causa-efeito, quando realizo, que de todos os dentes que as minhas filhas têm na boca, só dois é que caíram cá em casa. O mais engraçado é que quando a Caetana me liga toda contente para me dizer, que lhe tinha caído mais um dente (agora percebo o histerismo das minhas crias com a arqueologia da dentição) a Camila berrava qualquer coisa lá atrás.
Nisto, a Caetana dá um berro – Desaparece!!! Estou a falar com mãe ao telefone!
Contente e/por Incapaz de exercer qualquer reprimenda educativa à distância, pergunto-lhe o que é que a Camila tanto grita.
Responde a Caetana furiosa: – Ela é parva mãe!
Está a dizer que eu arranco os dentes só para ganhar dinheiro!
Esperemos bem que não.

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Dias Felizes

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Já foste difícil, tão difícil, que cheguei a dizer ao teu pai, em jeito de brincadeira, que nos concentrássemos apenas na Camila.
Quando estavas confinada à minha barriga, não me fiz rogada, e fartei-me de pedir ao criador que te inundasse de características boas, que te banhasse de qualidades ímpares, que me facilitasse a vida com um ADN propenso à auto-suficiência e muito amor próprio. Tentar não custa. E quando nasceste, quase como castigo, achei-te feia, muito peluda, magra e demasiado chorona.
Amei-te logo, porque se ama sem fronteiras o que é nosso. E ri-me, ri-me de ter sido tão tonta a desenhar-te as feições, a moldar-te o carácter, como se eu fosse alguma oleira de jeito.
O tempo foi passando, foi voando, foi correndo, e tu foste-te fazendo dentro do meu aquário. Com um ano, já eras uma boneca, com uma destreza física tão grande, que se te reclamassem para o circo, cederia como uma dádiva à humanidade. Falaste cedo, andaste cedo e seduzias qualquer criatura que se abeirasse, com uma gramática e um raciocínio tão adulto, que às vezes dava vontade de te desmontar só para te ver por dentro.
Entraste aos trambolhões na 1º classe, rebolaste sobre a separação dos teus pais, e com a mesma destreza com que fazias o pino, ergueste-te sobre tudo o que te doía, com uma força tão grande, que hoje, já acho que és mais alta que eu.
Nunca mais pedi nada ao criador, que não fosse a possibilidade de te amar de perto.
E ontem, quando me mostraste o teu primeiro conto com 6 páginas e 800 caracteres, quando me abraçaste enquanto lia, por entre erros e palavras adultas, e me disseste ao ouvido:
– Quando for grande, quero ser escritora mãe. É isso mesmo que quero ser, escritora.
Fiquei tão orgulhosa de nós e tão grata a vida, que vou inscrever a data no meu calendário dos dias felizes.
E se amanhã, mudares aquário, de sonhos e de ideias, porque a vida é um palco. Acho que sabes, que vou amar os teus desvios e as tuas rectas. E que prometo, manter a capacidade de te LER entre os erros e as palavras adultas.

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