Uma mãe com um coração inteiro

IMG_1697_5390-2Da pieguice à sensibilidade vai um fosso, aquele que separa a simples curiosidade mórbida da dificuldade real em viver com a tristeza alheia. E foi isso que senti quando recebi a msm de uma amiga da primária, que não vejo há mais de 15 anos. A Joana, chame-mos-lhe assim, é casada e mãe de duas filhas de 2 e 4 anos. Um dia, gostava de fazer uma sessão fotográfica com as filhas para registar este momento em que a sua força e o amor pelas crianças são prova de uma das suas maiores conquistas. Isto foi o preâmbulo com que arrancou a sua mensagem, mas o que me arrancou o coração é saber que a Joana, como tantas outras mães, se encontra desempregada e que depois de estar a um ano a tentar dar a volta, se vê obrigada a sair do País, deixando para trás as filhas. Independentemente dos meandros do porquê, sempre tive um profundo respeito por todas as mães com que me cruzei e que por questões de sobrevivência se viram obrigadas a deixar os filhos na esperança de virem a acumular o suficiente para um dia reunir a família com a qualidade e tranquilidade que lhes é devida. Embora trabalhe há alguns anos na área social, sou uma burguesa como tantas outras e, quase todas as mulheres que trabalharam em minha casa, eram mães em situação de imigração com o coração partido e uma família à distância. Para mim não é uma questão de 1º, de 2º ou 3º mundo, nenhuma mãe, sob nenhuma circunstância, se devia ver obrigada a separar dos filhos. Porque a hipotética riqueza recolhida na distância, que sabemos ser sempre mais escassa do que o sonho que nos lançou para a frente, nunca substitui a participação de uma mãe no processo de crescimento dos filhos. Não há nenhum telefonema por mais terno e adjectivado que substitua o passar das nossas mãos pelos seus cabelos, não há carta, presente ou postal que carregue o calor que o nosso colo promete e não há nota, vale postal ou cheque que lhes dê a mão quando a saudade aperta e não sabemos explicar porquê. E se antes estas situações eram satélite na nossa realidade, hoje elas despontam nos nossos perímetros de amizade e relação como borbulhas na adolescência. Não tenho soluções de escala para lutar contra o que aí vem mas o que sei é que é sou mãe e não quero pensar que amanhã possa ser eu a dar o beijo da força na cabeça das minhas filhas e partir. Vou pensar, vou pesquisar, vasculhar e, que seja um dia por mês, uma noite avulso, uma casa aleatória, que haja um grupo de mães que se junte para falar, conversar, partilhar, criando caminhos para que uma mulher possa viver sem o medo de deixar de ser um dia, uma mãe com um coração inteiro.

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