Um brinde às mães

IMG_9742Ontem parti uma garrafa de vodka ao abrir a porta do frigorífico. Ainda tentei amparar com o joelho mas a dureza do fim de semana suavizou-me a rapidez dos movimentos e a garrafa empinada sobre o joelho, cai redonda, estilhaçada e transparente no mármore, como um coração em final de namoro.
Gritei: – Que azar! Ao que a minha amiga Rita, que me ia fazer companhia para jantar, diz: – Não é um espelho, é só vodka Isabel.
Não é só vodka, não…
Bebo com gosto, sempre bebi. Bebo tinto, bebo branco, bebo whisly, vodka, rum, cachaça, licores e cerveja, muita. Nunca fui esquisita em relação ao álcool. Excepção feita aos cocktails com palhinhas coloridas, empalamento de frutas cristalizadas e chapeuzinhos Honolulu. Bebo sozinha e acompanhada, em pé ou sentada, da garrafa e do copo. Bebo para esquecer, para comemorar, para amolecer ou para soltar. A primeira vez que bebi cerveja, amei, achei um gás complementar ao meu e almadiçoei o tempo vivido na ignorância da fermentação. Já o vinho, acho-o efectivamente “o” néctar, digno de um representante no Olimpo e se a vodka fosse contemporânea de Zeus podia bem partilhar dos louros com o Cupido. O mal do álcool, para além do excesso óbvio de quem se atira ao vício, é o depois. Este 1 cm de linha fina de dor que se entala entre a testa e os olhos, o Mac Donald´s em fúria, as coca-colas ao litro e os filhos, independentemente da modalidade e ritmo. E tudo isto, não necessariamente por esta ordem.
Não minto às minhas filhas mas mesmo nos exercícios mais finos de psicopedagogia ainda não consegui encaixar no mesmo diálogo o excesso da bebedeira e a impaciência. Por isso e como boa mãe, ressacada, mas boa mãe, excedo-me até o álcool começar a sentir a clemência do esforço que lhe peço. Nessas noites, deito-me mais cansada, com uma dor de cabeça que já não reconhece culpado… e por isso adormeço e na evaporação subtil do álcool evaporam-se as culpas da consciência. Um brinde às mães e a todo esse amor que nos prende por vontade!

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