Tenho saudades

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Do andar de baixo numa avenida nova, chega-me um cheiro. Detenho-me, pauso-me nas escadas, encosto-me à porta. Há um conforto neste odor, como a almofada amassada do dia em que partiste. Como aquela camisa que amachuca no chão a saudade. É cheiro de mar na grelha, de gordura salgada sobre o carvão, é cheiro de Alfama. É cheiro a Santos. Está me na alma, entranhou-se me na memória, acorda-me os sentidos, puxa-me, recupera-me, exalta-me. Habito numa avenida nova com um cheiro que é velho para mim. Sento-me no patamar das escadas, indiferente a quem passa, acordada apenas pelo sentido do olfacto. E deixo-me transportar como uma quadra que se enterra com força no jarro de um manjerico. Tenho saudades dessa morada onde me achei. E tenho ternura por essa memória que se colhe num cheiro, como o ramo tosco que a criança dá à mãe. Estou aqui sentada. Mas é lá que o cheiro faz sentido.
Tenho saudades tuas Alfama. E não me tenho feito convidada desse olfacto, nem parte desse colectivo de narizes que te inala nesta quadra. Talvez me proteja um pouco da saudade, como um fado morno que se escuta atrás da porta.
Vou deixar passar a festa grande e o corrupio. E quando o cheiro ficar mais perdido, sei de coração, que te vou encontrar, nesse mesmo patamar de saudade onde hoje me sento.

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