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Consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência

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Uma das boas coisas que fiz estes dias foi reler algumas das entrevistas do Lobo Antunes. Conheço poucas pessoas, cujas entrevistas sejam pautadas por frases tão balísticas. Sem qualquer pretensão de citação, ficam-me na memória como os melhores paladares da vida. Na última entrevista de Lobo Antunes à Visão, o título escolhido foi uma dessas frases, que pronunciada à laia de conversa, é suficientemente paralisante para levar o jornalista a afiar o lápis na sua própria mandíbula.

“Não tenho jeito para viver.” ALA

E quando se diz uma frase destas, para lá de toda a psicologia subjacente…a verdade é que não se devia ser obrigado a dizer mais coisa nenhuma. Não sei se é só a mim que me comove, mas sou capaz de passar horas a lamber uma frase. Imagino que há frases que só podem ser pronunciadas com significância, por dois tipos de pessoas, as muitos simples, e as altamente complexas. Não acredito na classe média de algumas frases.
Acredito sim, que podia ir ao café na aldeia de Lameiros em São Luís, e ouvir o Ti Manel a dizer, enquanto puxa à cadeira: – Não tenho jeito para viver. E depois imagino, uma alma forjada em vida, uma mente irrequieta, uma inteligência dilacerante, numa voz seca e enfastiada pronunciando: – Não tenho jeito para viver!

Perdoem-me os medianos que não se acusam, mas sonho viver para pronunciar frases assim. Não no contexto de uma entrevista, mas no mais banal contexto da vida. E hei-de fazê-lo, sem qualquer necessidade de imortalizar a frase, lápis ou caderno. Vou dizê-las com a mesma displicente autoridade, do António Lobo Antunes e do Ti Manel. Terei nesse instante pronunciado, a mais suculenta certeza, que consegui resgatar à vida, tudo o que lhe é Essência.

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Os milagres acontecem aos pares

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Há histórias que “me” impressionam e esta é sem dúvida uma delas.
Conheci a Débora e o André num dos meus Workshops de Fotografia. O André é médico e a Débora enfermeira. Lembro-me de ter mandado a piada quebra-gelo do cliché. Estavam tão apaixonados que só escreviam a uma mão. Entrelaçavam-se, anuíam e sorriam, como quem vai confirmando, em permanência, o amor que sente. Quando lancei o desafio das #filhasdamae no Facebook, recebi um email da Débora. Descobri que tinha sido mãe de gémeas e descobri que as deliciosas #filhasdamae decidiram vir ao mundo com 25 semanas. Sem qualquer lamechiche (que lhes era totalmente devida), contaram-me de forma resumida a história da batalha que travaram:

“Estávamos ainda em lua de mel, sim porque tínhamos casado há cerca de 4 meses, numas mini ferias no Norte quando vimos o anúncio do workshop, como ambos somos uns apaixonados pela fotografia e a Isabel sem duvida uma das nossas fotografas favoritas não hesitamos em nos candidatar, e assim tudo começou. Estávamos super ansiosos pelo workshop e mais ainda por conhece-la, e as expectativas eram muitas e foram largamente superadas. O workshop foi super dinâmico, original, descontraído e a Isabel uma mulher fantástica e super apaixonada pela vida, pelo trabalho e pelas suas lindas filhas. Mas nos não fomos apenas os dois ao workshop, pois sem sabermos estavam duas lindas “filhas da mãe” na barriga da Débora, só mais tarde chegamos a saber da maravilhosa notícia. Temos a certeza que também vão adorar a fotografia.
Até aqui tudo parece perfeito mas na verdade estas “filhas da mãe” resolveram nascer com 25 semanas de gestação e matar os pais de susto. Tinham apenas “meio kilo de gente” quando nasceram e uma força de viver inacreditável. Achamos piada ao termo “filhas da mãe” porque as enfermeiras que cuidavam das nossas filhas como acham as meninas parecidas com a mãe estavam sempre a dizer “São mesmo filhas da mãe”.”
Não sei se podemos participar mas não custa tentar:) Elas já tem 7 meses mas na realidade equivale a uns 5/6 meses, pesam 5Kg e qualquer coisa…
Beijinhos Débora & André”

Fui visitar o blogue, li e reli a história das duas guerreiras. E assim que consegui, liguei para a Débora, a avisar, que eram sem dúvida as maiores #filhasdamãe que já tinha conhecido. E que teria o maior dos orgulhos em vê-las envergar um body que é metáfora pequena para a dimensão do que já conquistaram.
Nunca tinha tido contacto com prematuros. Estava longe de somatizar qualquer tipo de dor que uma mãe experencia quando se vê perante a luta da sobrevivência de um filho. Não consigo, por muito que tente imaginar, o que é que é passar 120 dias num hospital a olhar para uma box de vidro e a desejar tudo. Não me passa pelo coração, nem tenho vislumbre do que seja, não agarrar junto ao peito, um filho, quando tudo o que eles pedem é amor. E não consigo perceber, como é que se sai inteiro, quando o coração parece comprimir com tanta força, que nos arrasta a esperança com a respiração.
Tudo na vossa história me impressionou: A gestão da incerteza mais dura, a crueldade de regressar a uma casa vazia, o habitar de um hospital, a privação do toque, do colo e dos beijos, a resiliência com que erguiam todas as manhas, a energia com que fermentavam todas as brechas de esperança e o vosso Amor. Sobretudo, o vosso Amor.
Depois de ter estado umas horas largas na vossa companhia, não tenho a menor dúvida, que o maior tubo de oxigênio e vida, que a Maria e a Matilde receberam, foi o vosso amor.
E se eu nascesse muito pequenina, também havia de querer crescer só para ver algo assim.

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Estas fotos, foram tiradas pelo André e pela Débora.
Obrigado por partilharem connosco a batalha, e sobretudo a maravilhosa Vitória da vida, na forma mais desejada que há, as vossas filhas.

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