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Cartagena das Índias

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Ainda não tinha idade para ambicionar o Globo e já achava um delírio o nome da cidade “Cartagena das Índias*”, pronunciado de forma lenta e respeitosa. Imaginava uma terra mística, meio pirata, meio selvagem, lá longe num País mal afamado chamado Colômbia. Cartagena é muitíssimo turística e percebe-se bem porquê. Dentro das muralhas fortificadas abriga-se uma cidade colonial absolutamente encantadora. As portas de madeira grossa, as balustradas em madeira, as flores penduradas nas varandas a tentarem tocar as ruas, as carruagens de cavalo à turista (com aquele som fabuloso do casco sobre o chão de pedra), recantos para comer e beber tão acolhedores como casas abertas à rua, uma temperatura constante de 30 Graus e em cada esquina um cantar crioulo.
A cidade é cara, aproveita-se da concentração turística e faz dobrar os preços de Bogotá. Para quem dá valor à beleza das coisas, a verdade é que tem restaurantes saídos da Casa Décor, apetece reservar 3xs almoço e 4xs jantar. Confesso-me cansada dos sabores típicos da Colômbia, faz-me falta o paladar mediterrâneo, por isso, assim que posso e à falta de uma tasca portuguesa, vamos a um italiano do lado dar-lhe na focaccia impregnada de azeite, tomate e sal grosso. Amanhã seguimos para Medellin, terra famosa pela morado do Cartel de Pablo Escobar mas posso assegurar que Cartagena se ergueu acima dos meus sonhos de criança. Será um prazer se a vida me der uma oportunidade de aqui voltar:)
*O centro histórico de Cartagena, conhecido como a cidade fortificada, foi declarado Património Nacional da Colômbia, em 1959, e Património da Humanidade pela Unesco, em 1984.

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O Bem Bom (versão mais ou menos)

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Ilude-se quem pensa que na Colômbia está o melhor do Caribe, entenda-se por melhor do Caribe, a imagem clássica das praias de água tépida azul turquesa, com uma areia tão fina que parece farinha e um areal cheio de coqueiros de verde saturado e umas casinhas de colmo em formato bar com a promessa de muita lima e muito álcool.
A ideia da viagem à Colômbia não era Praia e continua a não ser. As praias do caribe têm areia castanha pastosa, o mar é acizentado e o areal com excepção de alguns pontos a norte do caribe colombiano, não chegam aos calcanhares burgueses de um resort no México ou mesmo de um all inclusive em Punta Cana. A água é morna mas o mar é ondulante, fustigado pelo vento quente. E esqueçam as conchinhas à beira mar, que o mais certo são seixos de três cores difusos enterrados ocasionalmente no castanho lamacento. Na Colômbia vale a pena perder-se em algumas das suas cidades, nos pueblitos, na zona das plantações do café. Vale a pena conhecer a vibrante Cartagena das Índias e as paisagens do interior, onde circula uma das maiores biodiversidades do mundo. Existem alguns lugares como o Parque Tyrona e as ilhas que oferecem cenários mais encostados ao imaginário caribenho mas os preços são impraticáveis e continua a não compensar o desvio sobre o essencial da Colômbia.
Aterramos directamente em Bogotá, palmilhamos a cidade, mas acusámos o cansaço de quem ressaca de uma vida demasiado cheia e urbana. Era suposto seguirmos de Bogotá para Medellin mas optamos por vir directamente para Cartagena das Índias. Descobrimos a 15 km da cidade um pedaço de Caribe, castanho é verdade, mas suficientemente artilhado de colmo e palmeiras. Aqui, sem medos e peneiras, despojamos os corpos, o cansaço e os planos. Munimo-mos das havainas, do sol e assumimos de corpo e alma que o “Mais ou menos” era o nosso Bem Bom. Assim e mesmo conhecendo o que o globo tem para oferecer de paraíso, gozamos como quem não conhece, tudo o que já conhecíamos.

P.S.: É preciso acrescentar que este  hotel tem a particularidade de ser para maior de 15 anos o que é altamente convidativo, para quem soma 4 crianças em conjunto.

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Bienvenida a Bogotá 6.6

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No ano passado tive em 3 cidades sul americanas, Lima, Buenos Aires e La Paz. Este ano vim a Colômbia com o Pedro. E quem é o Pedro? É um tipo giro que o meu coração recrutou há um ano para ser meu namorado.
E Bogota? Bogotá tem o cheiro gémeo às cidades que já visitei, um cheiro que é comum a todas as cidades sul americanas, e que tem a ver com os hábitos culturais e sociais, onde se misturam os vapores da cidade e dos costumes. O mesmo acontece ao cheiro das Áfricas quando lhe reconhecemos no odor a terra quente, a calda e o pó. Não sei bem categorizar o tipo de cheiro, sem correr o risco de ser ofensiva, mas tem um misto de fritura, com açúcar, com shampoo floral e gasolina queimada. Outra coisa absolutamente única é o compasso, o som, a musicalidade e a cor. É tão bom saber que há povos que não se importam de entornar o colorido da vida sobre as paredes das casas. Bogotá é assim, uma cidade onde as histórias se inscrevem nas paredes, onde a cor do tijolo ocre se funde com os gritos revoltados de um povo que não se inibe em fazer da cidade um cartoon histórico dos seus feitos. Ainda ando por aqui ando a namorar as igrejas caiadas de branco encostadas às encostas verdes da cidade, ainda andamos rua acima, rua abaixo na cusquice da vida mundana, desejosos de sorver conversas e paladares, como se os estômagos estivessem abertos para a melhor digestão da vida, viajar.

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Atestada de amor

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O pai das loirinhas está fora por um mês.
Acima da boa diplomacia, uma franca amizade, e como era trabalho, e não uma escapadela furtiva as ilhas Fiji, condescendi (se bem que sou sensível ao argumento das viagens furtivas e não havia propriamente outra mezinha).
O que significa que a custódia partilhada passa a ser total, por 30 dias úteis e inúteis.
Tenho a certeza que o pai das loiras já sabe que vou exercer esse crédito em igual desproporção:) Ainda não sei se vou permutar por 2 meses na Índia* ou por idas semanais ao SPA.
Até lhe disse, ao jeito de brincadeira, que ele não me podia fazer isso, porque eu corria o risco de me afeiçoar.
Afeiçoada eu já estou. A elas e aquela pausa negociada que nasceu do fruto da nossa separação. Devia respirar compassadamente, mas estamos a meio da “experiência” e eu já arfo.
A respiração ordeira dos primeiros dias, os gestos delico-doces, o gosto das primeiras fichas de férias e o leito partilhado a três é intervalado com doses intermitentes de impaciência.
É certo que vocês sabem que eu vos amo incondicionalmente, daí a corrupção ao desvario deste meu lar. Quando entro em casa ergo logo as mãos ao jeito de rendição e quando vos beijo antes de dormir, adormeço os meus desejos no prolongamento do vosso sono. Tenho tentado ser ambos, safa-se, mas não safa tão bem.
Dar-me-ia uma certa soberania sobre a tarefas se vocês não andassem sempre atrás de mim como os filhos de uma pata.
Deve ser reflexo óbvio da falta do Pai Pato.
Quando falamos com o “daddy” por Skype tenho vontade de as empurrar para dentro do monitor. E tenho a certeza que o olhar enternecido do progenitor, se faria real, se as pudesse receber do outro lado.
Isso consola-me e segura-me.
Ainda não lhes perguntei esta semana se sou boa mãe.
Não vou arriscar a demência da culpa de tentar ser tudo.
É o amor. Ninguém disse que era incólume.
Esta é a vossa mãe. Meio avariada, meio desvairada mas atestada de amor.
E sim pai, elas sentem muito a tua falta.
E creio que a mãe Pata também.
P.S:* India, já decidi:)

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O meu cavaleiro monge

Há 4 anos atrás fui para a Birmânia, durante um mês, com a minha melhor amiga.
A viagem não tinha qualquer intuito espiritual, que não fosse apenas a curiosa descoberta de um novo destino.
É engraçado, como o propósito de uma viagem pode condicionar a forma como se vive o mapa de antemão traçado. Nada faria adivinhar que em Mandalay nos cruzaríamos com um monge, que alterou o curso dos nossos planos, e transformou a descoberta de um destino, numa deliciosa incursão à essência da vida.
Esse monge chamava-se U-Vazira e tinha 25 anos. Conhecemo-lo quando visitávamos um templo.
Já há alguns minutos que reparávamos que o monge nos seguia de perto, rodeado de uma dúzia de crianças obedientes. À primeira oportunidade, perguntou-nos o nome, a idade e a nacionalidade.
Era tão curioso, que parecia estar a debitar um questionário, como quem tem medo de não vir a obter todas as respostas que precisa. Quando nos apercebemos, já estávamos num tuc-tuc com o monge a caminho do seu mosteiro. Durante dias, privamos com o monge ancião, com U-Vazira e os seus colegas. A maioria dos monges do mosteiro olhava-nos com timidez, a custo se aproximavam, e sempre que podiam, afastavam-se nos seus afazeres. Mas o U-Vazira não era um monge normal, era tão frenético como o vento rasteiro de uma corrente de ar. Queria levar-nos a todos os sítios, contar-nos todas as histórias e falar, falar até a noite cair e o céu ficar coberto de estrelas. Desde esse dia e até ao final da viagem, U-Vazira esperava-nos religiosamente às 5h da manhã na porta da pensão, com o seu manto castanho-avermelhado traçado sobre o ombro.
Eu achava aquilo “tão fora”, que lembro-me de ficar alguns minutos a olha-lo por detrás do vidro da entrada. Não tinha qualquer expressão de impaciência ou nervosismo. Esperava com tanta serenidade, que não me recordo que alguma vez tenhamos chegado atrasadas ao seu encontro. Percorremos a Birmânia com o U-Vazira.
E como o nosso amigo monge era aguerrido, tinha o seu passaporte confiscado, por ter participado nos conflitos contra o exército em 2007, e por isso viajava de autocarro durante dias, para se juntar, onde nós chegávamos de avião. E assim era.
Lá estava ele, de pé, de braços cruzados, pacientemente à nossa espera. U-Vazira confidenciou-nos que o seu maior desejo era ser professor de inglês, que não tinha acesso à Internet, e que a sua única forma de aprendizagem era o contacto escasso com os turistas que ia conhecendo. Tinha a sorte de se corresponder com alguns deles, quando o correio não se extraviava e as cartas não chegavam manchadas à tinta esborratada da humidade. Disse-nos com alguma mágoa que a maioria das pessoas prometia voltar, mas que apenas um o tinha feito. Senti-me impelida a prometer que voltaria. Mas nesse dia não o fiz.
Não é permitido tocar nos monges, mas no dia da despedida, quando o vi de novo à entrada sem qualquer expressão de impaciência ou dor, abracei-o. Abracei-o com força, e disse-lhe que sim, que voltaria a Birmânia, a Mandalay e ao seu mosteiro. E como não quero encarnar numa barata e a saudade aperta, já só penso no dia em que voltarei a atravessar a U-pein bridge em Amarapura, em conversa acelerada com o meu cavaleiro-monge.

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