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As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.

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Cada vez que regresso a São Tomé há um pensamento que regressa comigo. As miúdas, as meninas, as mulheres das ilhas.
É difícil comparar com as nossas miúdas, meninas e mulheres.
Aqui as crianças parecem mais crianças. São-no no estado puro de quem cresce descalço sobre a terra, de quem sorri sem medo para quem passa, de quem segue para a escola a pé, a rir com outras crianças, de quem mergulha nu no mar e participa sem queixume visível da vida em comunidade.
Parecem tão pequeninos para tanto e são mesmo.
Como eu quis, e não consegui, que na mesma idade as minhas miúdas andassem mais descalças, mas consegui que nadassem nuas em todas as praias, não consigo ainda, que vão para a escola sozinhas, mas já consigo que vão à mercearia comprar o pão e as frutas que faltam. Vou tentando, sempre que posso, fintar-lhes os vícios da cidade, das rotinas cómodas, das certezas sem fim. Ambiciono muito para as minhas miúdas, meninas.
Não lhes falta nada. Mas ainda lhes falta muito.
Esse muito que ainda lhes falta é o sacrifício. E nós hoje, ainda pouco fazemos por essa doutrina sã que criou tanto filho bom.
É uma luta quase inglória porque quando há não se retira. Quando se tem não se adia.
Um dos pensamentos que ganha força aqui é a certeza de que vos tenho que dar menos para vos saber dar mais.
E se algum dia tiver receio que me culpem por isso…
Invade-me a certeza que o vosso coração irá mais cheio por cada vazio meu.

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AS ESPINHAS DO OFÍCIO

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Tenho um tremendo respeito pelos pescadores, admiração será melhor palavra. Respeito, tenho por todos aqueles que se atiram a remover a terra e ao mar revolto em busca de um sustento.
Mas há uma sensibilidade fina mascarada de rudeza em cada aldeia de pescadores. Há uma timidez feita de cal e esforço que suspende o sorriso fácil. Há muita marca no corpo a lembrar o desfecho de uma história que se quis diferente.
No emaranhado das redes adivinham-se as correntes da vida.
E em cada nó apertado da linha prende-se a fome, a vontade e a incerteza.
Comecei por lhes pedir se podia fotografar as mãos.
As mãos de um pescador são os seus olhos.
Deram-me um “sim” rouco e continuaram a costurar de pé, com os pés descalços sobre uma cordilheira de redes coloridas, como se fossem costureiras apressadas antes do baile final.
Há muita poesia na pesca.
As aldeias de pescadores têm o perfume das escamas, misturado com as entranhas do mar a secar na areia, mas a mim encantam-me. E nada me constrange no seu silêncio, porque eu sei que por dentro, todos trauteiam na mesma canção.

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Chegámos às 6h00 da manhã …

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Chegámos às 6h00 da manhã a São Tomé depois de 5 horas e 45 minutos de um dos voos mais turbulentos que já fiz.
Apesar do avião vir semi-cheio, e de ter conseguido estender as pernas por três lugares da fila do meio, mesmo tendo todos os kits: Pescoço, olhos e manta, e os joelhos do Pedro para amparar a minha cabeça morena, não consegui pregar olho. Aterramos com cara de peixe a findar em lota.
Quando saí do avião bastaram duas partículas de oxigénio para inalar aquela humidade quente do Equador e aquele verde espesso, que desce sem maneiras da montanha até ao mar. Fomos de transfer para o aeroporto. O dia nascia devagarinho, junto com sono em dívida de cada bochecho nosso.
Esta terra tranquiliza-me.
Assim que chegámos ao hotel, deixámos as malas no quarto e como crianças em véspera de natal, esquecemos rapidamente a necessária conciliação do sono e decidimos ir a pé até ao centro da cidade. Como o criador é amigo fomos parados por dois tipos de jeep que nos ofereceram boleia até ao café mais próximo, que pelos meus cálculos, devia ficar a 40 minutos de caminho. Bora lembrar que a humidade bate alto e que as temperaturas rondam os 28 graus e ainda não eram 8 da manhã. Suavamos como se tivessemos acabado a São Silvestre em primeiro lugar. Como a ilha é pequena perguntei ao Paulo se conhecia o Mike, o meu amigo e guia, com quem estive nas vezes que aqui vim. Passou-me logo o telefone e em menos de nada estavamos todos no café a combinar o roteiro dos próximos dias. Regressámos ao hotel já com o Mike, depois de termos passado uma hora à procura de uma bomba que tivesse gasolina. Desde o Natal, que o povo são tomense se dedica em exclusivo à arte do lazer, invadindo as praias com marmitas e famílias, como se só agora tivessem descoberto que habitam uma ilha. É curioso porque o povo não gosta de fazer praia. E esta é uma das poucas alturas do ano em que vemos as praias da marginal, às mais recônditas, carregadas de pontos pretos em movimento e alegria. Ainda tirei umas chapas, como esta, mas estou com os olhos tortos do cansaço e preciso mais de dormir que qualquer outra actividade. Amanhã vamos para o Norte da ilha, visitar as roças e comer as santolas de Neves. Amanhã sim, os meus olhos vão fazer jus à beleza da ilha e eu vou retribuir em largos sorrisos, tudo o que de bom se recebe aqui: “leve-leve”.

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#NÃO AO MEDO

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#NÃO AO MEDO

Devia escolher esta imagem para ilustrar um momento mais feliz, mas não dá para sobrevoar o que está a acontecer…e continuar planando sobre o ar quente dos dias, só porque o bafo que nos sustenta teve a sorte aleatória da melhor hora, do local certo e da circunstância boa.
E não dá para querer cortar as asas de quem sonha voar para longe de um chão que não o deixa crescer, poisar sequer, ou semear.
E menos ainda, desconfiar de quem quer ser livre, só por quem nunca sentiu antes, a asfixia da liberdade.
Nestes dias, em que ficamos com poucas certezas, encontro na forma como as educo, a minha pista de descolagem.
A consciência da sua dimensão na dimensão do mundo. A importância das suas acções na condução do seu destino. A crença na humanidade. O amor aos outros. A luta pela liberdade. A defesa da igualdade. E o amor à terra. E se der para ir mais longe no meu vôo de mãe, quero muito, que os seus sonhos tenham a força de duas asas e que nunca tenham receio de se elevarem por aquilo em que acreditam.
Porque o céu não tem arame farpado, o sol não é uma estrela privada e o medo não ganha à força da Liberdade.

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Respirei Fundo, Só Isso.

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Não gosto de pôr demasiada pressão no último dia do ano. Há uma doce irresponsabilidade nas horas que achamos perdidas, que eu gostava seriamente, que continuasse a banhar o resto dos meus dias.
Estamos a 15 km da costa.
Hoje já fomos da terra ao Mar e do Mar à terra.
Já li os meus desejos para 2014, enquanto comia umas tiras de carne assadas na brasa junto à praia dos Aivados, já bebi um jarro de tinto da casa e comi uma mousse de chocolate. Já fui até praia do Salto brincar com as loiras, já tirei o instagram da praxe ao último pôr do sol. E não é que o criador se esmerou: acentuou os laranjas, reforçou os rosas, desenhou um set perfeito: uma maré baixa de prateados e pôs todas as poças da praia a reflectir o céu. Por uns minutos, as vozes enérgicas das loiras, enrolaram junto com a espuma do mar e eu consegui dar aqueles passeios solitários de 5 minutos à beira mar. Antes, eu achava coisa de velho melancólico, quando os via passar de mãos trancadas nas costas, passos arrastados a olhar o mar. Hoje, acho que já percebo. Um dos segredos da maturidade está sem dúvida na percepção do tempo. Não tive nenhum pensamento profundo nos 5 minutos que o criador fez reinar naquela praia, nas loiras à distância e no pôr do sol a enterrar no mar. Respirei fundo, só isso.
E tive a certeza que estou a crescer.

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