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“Quando voltares da África do Sul…”

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Nunca tive feitio para grandes dramas, por isso digo-te a brincar que “Quando voltares da África do Sul, vou ter noventa e cinco anos.” Que me vais ter que ressarcir por cada sulco profundo e por cada gordura acumulada indevidamente.
E isso, só para falar de raspão dos danos visíveis de ser mãe monocasta. Depois, há todas as mazelas que não se vêem a olho nu: Os transtornos do sono e a culpa que morre só.
Sei que estás a fazer pela vida e por isso não gosto de te incomodar com a ladainha dos dias. Às vezes poupo-te, substituindo as coisas menos boas pelas histórias da Saudade.
Na verdade, as coisas menos boas não são necessariamente más, mas são verdadeiramente complicadas.
Sei que se pudesses estavas cá e se calhar, não imaginas, a quantidade de vezes que as punha aí(se pudesse).
Os dias não nascem todos com sol. E às vezes a minha energia não chega para ser painel solar das emoções de toda a família.
E quando as coisas complicam e chovem reclamações, também já vi que não tenho comprimento de braços para ser guarda-chuva. O amor que lhes tenho é um depósito, mas às vezes dou por mim a lamber a reserva.
Se calhar não imaginas as vezes que estanco a derrocada de lágrimas, por cada negativa de um teste, por cada falta de material e por cada telefonema da Professora. Tento que nada lhes falte, mas não consigo suprir com beijos as fendas das saudades que elas têm de ti.
E não consigo escavar no tempo, um abrigo que chegue, para as saudades que tenho da minha vida quando estavas cá. Essas, apago-as num copo de vinho, quando a noite condescende no meu turno de mãe.
Por isso digo-te novamente a brincar “hoje já tenho oitenta e seis”.

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É o amor mais fácil.

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É o amor mais fácil.
O único que não se lamenta.
É sentimento aço e soberano. De uma geometria incondicional.
É tão vivo, que chega a doer de tanto querer. É simples na forma como nasce, espontâneo na forma como se vive. É universal a credos e a cores. Indiferente a transformações, mutações e formatos.
É transparente na vivência é opaco a interferências e não tem reticências de qualquer espécie. É todo dar. E só porque educa e ama, recebe, mas não pede, dá.
É abrasador, catalisador e benevolente. Nasce sem condição.
É sentimento que respira para além da vida, acima do querer e da saudade. Não é prisioneiro nem carrasco.
É amor, não é lamento, não nasce fora, vem de dentro.
E mesmo quando não sabe ser assim tão ágil.
Nunca fica frágil. É o meu amor mais fácil.

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Os milagres acontecem aos pares

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Há histórias que “me” impressionam e esta é sem dúvida uma delas.
Conheci a Débora e o André num dos meus Workshops de Fotografia. O André é médico e a Débora enfermeira. Lembro-me de ter mandado a piada quebra-gelo do cliché. Estavam tão apaixonados que só escreviam a uma mão. Entrelaçavam-se, anuíam e sorriam, como quem vai confirmando, em permanência, o amor que sente. Quando lancei o desafio das #filhasdamae no Facebook, recebi um email da Débora. Descobri que tinha sido mãe de gémeas e descobri que as deliciosas #filhasdamae decidiram vir ao mundo com 25 semanas. Sem qualquer lamechiche (que lhes era totalmente devida), contaram-me de forma resumida a história da batalha que travaram:

“Estávamos ainda em lua de mel, sim porque tínhamos casado há cerca de 4 meses, numas mini ferias no Norte quando vimos o anúncio do workshop, como ambos somos uns apaixonados pela fotografia e a Isabel sem duvida uma das nossas fotografas favoritas não hesitamos em nos candidatar, e assim tudo começou. Estávamos super ansiosos pelo workshop e mais ainda por conhece-la, e as expectativas eram muitas e foram largamente superadas. O workshop foi super dinâmico, original, descontraído e a Isabel uma mulher fantástica e super apaixonada pela vida, pelo trabalho e pelas suas lindas filhas. Mas nos não fomos apenas os dois ao workshop, pois sem sabermos estavam duas lindas “filhas da mãe” na barriga da Débora, só mais tarde chegamos a saber da maravilhosa notícia. Temos a certeza que também vão adorar a fotografia.
Até aqui tudo parece perfeito mas na verdade estas “filhas da mãe” resolveram nascer com 25 semanas de gestação e matar os pais de susto. Tinham apenas “meio kilo de gente” quando nasceram e uma força de viver inacreditável. Achamos piada ao termo “filhas da mãe” porque as enfermeiras que cuidavam das nossas filhas como acham as meninas parecidas com a mãe estavam sempre a dizer “São mesmo filhas da mãe”.”
Não sei se podemos participar mas não custa tentar:) Elas já tem 7 meses mas na realidade equivale a uns 5/6 meses, pesam 5Kg e qualquer coisa…
Beijinhos Débora & André”

Fui visitar o blogue, li e reli a história das duas guerreiras. E assim que consegui, liguei para a Débora, a avisar, que eram sem dúvida as maiores #filhasdamãe que já tinha conhecido. E que teria o maior dos orgulhos em vê-las envergar um body que é metáfora pequena para a dimensão do que já conquistaram.
Nunca tinha tido contacto com prematuros. Estava longe de somatizar qualquer tipo de dor que uma mãe experencia quando se vê perante a luta da sobrevivência de um filho. Não consigo, por muito que tente imaginar, o que é que é passar 120 dias num hospital a olhar para uma box de vidro e a desejar tudo. Não me passa pelo coração, nem tenho vislumbre do que seja, não agarrar junto ao peito, um filho, quando tudo o que eles pedem é amor. E não consigo perceber, como é que se sai inteiro, quando o coração parece comprimir com tanta força, que nos arrasta a esperança com a respiração.
Tudo na vossa história me impressionou: A gestão da incerteza mais dura, a crueldade de regressar a uma casa vazia, o habitar de um hospital, a privação do toque, do colo e dos beijos, a resiliência com que erguiam todas as manhas, a energia com que fermentavam todas as brechas de esperança e o vosso Amor. Sobretudo, o vosso Amor.
Depois de ter estado umas horas largas na vossa companhia, não tenho a menor dúvida, que o maior tubo de oxigênio e vida, que a Maria e a Matilde receberam, foi o vosso amor.
E se eu nascesse muito pequenina, também havia de querer crescer só para ver algo assim.

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Estas fotos, foram tiradas pelo André e pela Débora.
Obrigado por partilharem connosco a batalha, e sobretudo a maravilhosa Vitória da vida, na forma mais desejada que há, as vossas filhas.

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