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AS ESPINHAS DO OFÍCIO

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Tenho um tremendo respeito pelos pescadores, admiração será melhor palavra. Respeito, tenho por todos aqueles que se atiram a remover a terra e ao mar revolto em busca de um sustento.
Mas há uma sensibilidade fina mascarada de rudeza em cada aldeia de pescadores. Há uma timidez feita de cal e esforço que suspende o sorriso fácil. Há muita marca no corpo a lembrar o desfecho de uma história que se quis diferente.
No emaranhado das redes adivinham-se as correntes da vida.
E em cada nó apertado da linha prende-se a fome, a vontade e a incerteza.
Comecei por lhes pedir se podia fotografar as mãos.
As mãos de um pescador são os seus olhos.
Deram-me um “sim” rouco e continuaram a costurar de pé, com os pés descalços sobre uma cordilheira de redes coloridas, como se fossem costureiras apressadas antes do baile final.
Há muita poesia na pesca.
As aldeias de pescadores têm o perfume das escamas, misturado com as entranhas do mar a secar na areia, mas a mim encantam-me. E nada me constrange no seu silêncio, porque eu sei que por dentro, todos trauteiam na mesma canção.

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“Já ninguém quer casar”

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Olho para esta fotografia e rio-me.
Gosto de flores, sempre gostei de flores.
Sei por experiência, que o bouquet se pode tornar um apêndice suado nas mãos da noiva, mas admiro-lhe o acréscimo de beleza que traz à composição de tudo.
Um ramo de flores diz muito de quem o carrega. Mas a história deste bouquet é singular.
Só a história do bouquet, porque a noiva que o carrega, está de barriga virada ao sol, numa dessas ilhas invejosas que polvilham o pacífico, de mãos dadas com o amor. (Ao que me consta no Instagram.)
Passo a explicar: Todos os casamentos, mesmo os mais modernos têm momentos. Um deles é o arremessar do bouquet da noiva às mulheres solteiras da sala (ou em condição de namoro prolongado sem desfecho formal:).
É engraçado o momento, porque permite identificar o número de mulheres solteiras da sala e agrega-las em torno de um só propósito. Claro, que para qualquer “Maria Capaz” que se preze, o anseio feminino e desesperado por um “pede-me” não é motivo de orgulho, menos ainda de momento, menos ainda de protocolo. Mas não nos detenhamos nessas considerações (a considerar).
A verdade é que o mulherio alinha em gargalhada na cena, como eu já alinhei, nos tempos curtos, em que fui rapariga solteira.
A noiva dança, rodopia, simula, ri-se, provoca e lança.
As mulheres solteiras batem palmas, mas quando o olhar sobe acompanhando o disparo do ramo, baixam os braços.
O ramo rodopia sozinho, os olhares dos convidados acompanham a dança das flores, e o ramo cai.
Soltam-se as pétalas e as gargalhadas. Os olhares cruzam-se, interrogam-se. A noiva alça as mãos em beicinho sobre as ancas.
“Já ninguém quer casar”, diz-se pela sala.
A noiva apanha o ramo atordoado, pede ao DJ que prossiga e encosta a promessa ao lado, com o suspiro consentido das mulheres da sala. “Siga”, pensam em uníssono.
E a valsa prossegue, sobre um chão caiado a pétalas e um acordão em rodopio.

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