Blog Archives

Atestada de amor

untitled-492

O pai das loirinhas está fora por um mês.
Acima da boa diplomacia, uma franca amizade, e como era trabalho, e não uma escapadela furtiva as ilhas Fiji, condescendi (se bem que sou sensível ao argumento das viagens furtivas e não havia propriamente outra mezinha).
O que significa que a custódia partilhada passa a ser total, por 30 dias úteis e inúteis.
Tenho a certeza que o pai das loiras já sabe que vou exercer esse crédito em igual desproporção:) Ainda não sei se vou permutar por 2 meses na Índia* ou por idas semanais ao SPA.
Até lhe disse, ao jeito de brincadeira, que ele não me podia fazer isso, porque eu corria o risco de me afeiçoar.
Afeiçoada eu já estou. A elas e aquela pausa negociada que nasceu do fruto da nossa separação. Devia respirar compassadamente, mas estamos a meio da “experiência” e eu já arfo.
A respiração ordeira dos primeiros dias, os gestos delico-doces, o gosto das primeiras fichas de férias e o leito partilhado a três é intervalado com doses intermitentes de impaciência.
É certo que vocês sabem que eu vos amo incondicionalmente, daí a corrupção ao desvario deste meu lar. Quando entro em casa ergo logo as mãos ao jeito de rendição e quando vos beijo antes de dormir, adormeço os meus desejos no prolongamento do vosso sono. Tenho tentado ser ambos, safa-se, mas não safa tão bem.
Dar-me-ia uma certa soberania sobre a tarefas se vocês não andassem sempre atrás de mim como os filhos de uma pata.
Deve ser reflexo óbvio da falta do Pai Pato.
Quando falamos com o “daddy” por Skype tenho vontade de as empurrar para dentro do monitor. E tenho a certeza que o olhar enternecido do progenitor, se faria real, se as pudesse receber do outro lado.
Isso consola-me e segura-me.
Ainda não lhes perguntei esta semana se sou boa mãe.
Não vou arriscar a demência da culpa de tentar ser tudo.
É o amor. Ninguém disse que era incólume.
Esta é a vossa mãe. Meio avariada, meio desvairada mas atestada de amor.
E sim pai, elas sentem muito a tua falta.
E creio que a mãe Pata também.
P.S:* India, já decidi:)

Comentar

Lá fomos nós para a escola de motorista

IMG_0487_6066

Comecei a segunda feira em grande.
A minha mão na mão papuda da Camila. Cabeça de mãe virada para trás, a acompanhar o andar lento, passado e elegante da Caetana que atravessa a passadeira como se pousasse para um anúncio da Donna Karan NY. Ela era madeixa alçada sobre a brisa à esquerda, ela era olhar atirado com desdém à direita e toda uma fila de carros à espera. Ela era a mãe desesperada com as calças de ginástica vestidas, um frio de rachar nos tornozelos e duas mochilas na mão. E o pigmeu da montanha a reclamar: – Não posso chegar atrasada…
Chegamos ao carro, despejamos as loiras e as mochilas lá para dentro. Entro no carro, rodo a chave e nada. Sem tempo para conjecturas sobre a mecânica ou o fim prematuro da viatura, sacam-se as loiras do carro. Abeiro-me da estrada e quando dou por mim, já a Caetana estava dois metros atrás a mandar parar um táxi, com o mesmo jeito nova iorquino da série: Dois dedos no ar, calcanhares levemente erguidos e gémeos em levitação. Entramos com as mochilas da Violetta, os cestos da comida e as loiras. Indiquei a direcção e lá fomos nós para a escola de motorista. No interior da viatura, a Caetana de perna cruzada elogia-lhe o conforto, enquanto a Camila passa as mãos pelo acento do motorista forrado a imitação de lã e diz:
– Que bonito mãe, que fofinho, temos que comprar um igual.
Chegadas à escola. Mochilas nas costas, um cesto em cada mão e um beijo rápido na testa: – Boas aulas filhas da mãe!
Aceno da Camila, resposta da Caetana: – Adeus mãe!
Vou dizer à professora que viemos de táxi.
E eu vim para casa chamar o reboque.

Comentar

No epicentro do recreio

IMG_0201_7105

Fui à escola das loiras à hora do almoço para entregar uma surpresa à Caetana e dar um beijo de saudades na Camila. Cheguei bem no epicentro do recreio, na debandada da hora do almoço. Eram tantas as crianças que não conseguia vislumbrar as minhas, era tanto o barulho que o meu cérebro não conseguia comandar os olhos numa busca e os meus membros estavam tão intimidados que não se queriam mexer. Ingénua, ainda pensei que se me quedasse muda e hirta ia ser descoberta pelas crias, amparada pelos seus abraços pujantes, sacudida pelos beijos da saudade. Passaram-se minutos e nada. Iniciei a busca ocular, movi o corpo por entre os seres pequeninos. De repente, pareciam-me todas loiras, todas elas. Vi uns adultos iguais a mim, quedos e hirtos mexendo o pescoço em cata-vento. Sorri como quem solidariza, não estou só, pensei. Passaram-se mais uns minutos quando ouvi uma voz. – Mãe!
O meu descodificador acusou um laço parental naquela voz, a minha cabeça virou-se e o meu coração deu sinais de impaciência. Uma já cá canta, pensei. Não, não pensei. Abracei-a com exagero, percebi-o no olhar das amigas e no desatar escorregadio dos braços. O recreio é o palco das crianças, demonstrações afectivas sim, mas devidamente enquadradas e com discrição.
Eu respeito. Muito. Também já fui miúda pequena e apesar da minha mãe não ser dada às visitas surpresa na hora do recreio, imagino o meu embaraço se fosse. Aquele abraço exagerado que a mãe aperta com culpa na semana que é do pai. Percebo-te.
Mas tinha saudades tuas. Disse “Olá” às tuas amigas com muita simpatia mas sem grande exagero. Sei bem, que tudo o que tu queres nesta idade é que tudo seja normal. Mãe normal com saudades normais. Despedi-me com um beijo normal, disse que te adorava, como faço normalmente. E parti em busca da cria menor. Quanto mais pequeno mais difícil. Como já estava com a maternidade em red light vi-te logo. Corrias como uma seta atrás de um menino. A tua gargalhada era tão boa que até parecia que os dentes de leite iam à frente do corpo. Estiquei o braço para te agarrar. Percebeste que era eu e travaste o passo. Voltei a descer e abracei-te com força as pernas. Já não fui a tempo de ser normal. E como faço normalmente, disse que estava cheiaaaaaa de saudades tuas. Sorriste sem grande reciprocidade de gesto, a tua cabeça vigiava o movimento dos teus pares. Estavas num jogo da apanhada, mas não para ser apanhada por mim. Dei-te um beijo grande e respirei o cheiro dos teus caracóis. Levantei-me e saí do recreio com um andar normal e um coração saciado. Quando estava quase a dobrar a esquina, oiço a voz da Cria grande: – Mãe!!
Vieste na minha direcção, abraçaste-me as pernas e quando ia curvar a cara para me aproximar da tua cabeça, olhaste-me nos olhos e disseste baixinho, mas com muita força: – Amo-te.
E eu sai do teu recreio anormalmente feliz.

Comentar

Um canino vale o mesmo que um molar

IMG_0152

Tenho a sorte, muito trabalhada por ambos, de ter uma relação para lá de boa com o pai das minhas loiras.
Mas Custódia partilhada, é custódia partilhada. E ainda que falemos quase diariamente sobre os mais diferentes aspectos da educação das miúdas, há sempre situações imprevistas que nos escapam. E outras tantas, que parecem tão ridiculamente pequeninas que nem perdemos tempo a falar delas.
A fada dos dentes foi um desses assuntos. Espertas, as loiras garantem que os dentes que caiem em casa do pai valem 10 €, contra os 2€ por dente que se praticam cá em casa, independentemente da sua posição na boca. Um canino vale o mesmo que um molar. Assimilada esta realidade, percebo agora que a fada dos dentes do meu lar está em situação de precariedade, enquanto há uma fada e duas loiras sortudas que florescem lá para os lados do pai.
E também consigo estabelecer alguma relação causa-efeito, quando realizo, que de todos os dentes que as minhas filhas têm na boca, só dois é que caíram cá em casa. O mais engraçado é que quando a Caetana me liga toda contente para me dizer, que lhe tinha caído mais um dente (agora percebo o histerismo das minhas crias com a arqueologia da dentição) a Camila berrava qualquer coisa lá atrás.
Nisto, a Caetana dá um berro – Desaparece!!! Estou a falar com mãe ao telefone!
Contente e/por Incapaz de exercer qualquer reprimenda educativa à distância, pergunto-lhe o que é que a Camila tanto grita.
Responde a Caetana furiosa: – Ela é parva mãe!
Está a dizer que eu arranco os dentes só para ganhar dinheiro!
Esperemos bem que não.

Comentar

Respirei Fundo, Só Isso.

YE2A1051

Não gosto de pôr demasiada pressão no último dia do ano. Há uma doce irresponsabilidade nas horas que achamos perdidas, que eu gostava seriamente, que continuasse a banhar o resto dos meus dias.
Estamos a 15 km da costa.
Hoje já fomos da terra ao Mar e do Mar à terra.
Já li os meus desejos para 2014, enquanto comia umas tiras de carne assadas na brasa junto à praia dos Aivados, já bebi um jarro de tinto da casa e comi uma mousse de chocolate. Já fui até praia do Salto brincar com as loiras, já tirei o instagram da praxe ao último pôr do sol. E não é que o criador se esmerou: acentuou os laranjas, reforçou os rosas, desenhou um set perfeito: uma maré baixa de prateados e pôs todas as poças da praia a reflectir o céu. Por uns minutos, as vozes enérgicas das loiras, enrolaram junto com a espuma do mar e eu consegui dar aqueles passeios solitários de 5 minutos à beira mar. Antes, eu achava coisa de velho melancólico, quando os via passar de mãos trancadas nas costas, passos arrastados a olhar o mar. Hoje, acho que já percebo. Um dos segredos da maturidade está sem dúvida na percepção do tempo. Não tive nenhum pensamento profundo nos 5 minutos que o criador fez reinar naquela praia, nas loiras à distância e no pôr do sol a enterrar no mar. Respirei fundo, só isso.
E tive a certeza que estou a crescer.

Comentar

Bora lá outra vez

20141216_3209

Isto é um tema recorrente: As famosas festas de Natal das crianças.

Ora, se a época é de paz e fraternidade, não encontro nada de fraterno na busca incessante de uma mãe atrás de um fato de ovelha. E um desenrascar caseiro, para uma não menos trajada, menina do povo. Os meus suores frios começam logo na recepção da circular da escola e só terminam no final do espectáculo, quando garanto no olhar entusiasmado das petizes que o desenrasque da mãe não a enrascou. Sai uma ovelha da Primak, e uma menina do povo com um top da Bershka, uns collants castanhos e um lenço na cabeça em tons laranja. Atravessa a cidade em tumulto, filma, fotografa, beija pais, beija crianças, cumprimenta auxiliares, dialoga com professoras, garante um lugar à frente e depois desloca-te em corrida lá para trás, quando as crianças saírem em debandada ladeados por todo um presépio de amigos.

Há que certificar que eles te viram, que comprovam e validam o brio com que conquistaste o teu lugar entre os progenitores, para os reivindicares orgulhosamente como filhos. Corre muito, ainda que te apeteça pouco, elogia em exagero porque eles só vão ouvir uma parte ínfima do amor que lhes atiramos, nos piropos de final de festa. E depois, elogia-lhes a graça dos gestos e o jeito, ainda que tivesses na vigésima fila de trás a enviar sms´s. Sabes que eles nunca vão adivinhar o esforço que fizeste para estar ali, a uma hora estupidamente difícil, até que estejam no teu papel. E quando isso acontecer, tu vais ser a avó da frente, que já não tem saco para sms´s e que tem tempo de sobra para garantir o lugar na fila da frente.

Faz parte do acordo geracional. Não vale a pena amuar com a vida, só porque ela nos lixa duas vezes por ano com as festas da filharada. Eu cá não gosto, e como não posso pedir dispensa, envio sms´s com fartura, corro que me canso, elogio que me farto, mas é no palco cá de casa que me desforro.

E para ter uma foto assim, dou de barato, a factura do cansaço de mais uma festinha de Natal:)

Comentar

Sem medo bandida!

manhosasss

Acorda às 7h! Sai da cama bandida!
Tens os pés frios? Temos pena. Ardem-te os olhos do sono em dívida? Não verberasses tanto pela noite a dentro. Sossega-te rapariga, que esse teu jeito de acordar como se todos os dias fossem véspera de Natal, não traz presente.
Tropeças ou manténs-te a pé sem jeito?
Tens que acordar as crias. Sim. Não adianta demorares-te a olhar de soslaio pela porta. Primeiro, porque não tens tempo. Segundo, porque sim, são mesmo tuas.
Raivinhas de anseio por vidas diferentes, é muito infantil.
Se te visses, agora mesmo ao espelho, nesse mesmo desalinho, com que reclamas o bom que tens, talvez te chegasse à pele a idade real da vida.
Bora bandida!
Vai lá abanar as trunfas loiras escondidas no bafo quente dos lençóis. Não te esqueças que uma mãe é terna mas assertiva. Se amoleceres não vai pegar, se quebrares, não vai acontecer. E não vale a pena, cair na tentação de lamberes o sono das crias, porque isso não amortiza pecado das horas que não lhes deste.
É a vida miúda. E lembra-te, ao primeiro apito sóbrio do micro ondas, quando te aperceberes que já estás atrasada, que estás mal entalada, mal vestida, mal dormida, que é essa mesma vida que te faz feliz.
Sem medo bandida!
Vai lá e veste as pequenas com carinho. Não te esqueças que para além da ética, está a estética. Penteia-lhes os cabelos com o mesmo gosto com que o Robert Redford lavou os cabelos da Meryl Streep. Lembra-te que o gesto é memória. É isso mesmo bandida, ser mãe é narrativa.
Fecha lá as marmitas das loiras, emparelha com mestria os pedaços de bollycao com a fruta fresca. Fecha as mochilas rosa sem brusquidão. Sem bufos de surdina, bandida…E não te esqueças, ajuda carregar as mochilas, que as tuas costas estão mais ao jeito de descida. Peso e responsabilidade, por muito jeito que te dê, não têm porque ter irmandade. E agora Bandida?
Toca a andar. Põe-lhe os cintos, mas sem gritos. Não descures a boa vizinhança, a predisposição temperamental, e com um quase nada de esforço, desbota a cara de avental.
Então bandida? És mulher moderna ou mãe arrependida?
E nada de compensar a desorganização do lar, com o pé pesado, o grito amuado ou a mão na buzina. E já sabes, quando as poisares no chão do templo, que chamas escola, não te apresses na carícia. Que não há maior delícia que a imagem de uma mãe a beijar a sua cria.

Comentar