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Era agora, era ali…

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Era agora, era ali, naquele momento em que desci com as loiras para as entregar ao pai. Ou se calhar foi mais à frente, quando já subia sozinha no elevador cheia de resoluções, de sede de mojitos e de projectos. Ui…aquele momento em que me achei só, no silêncio de mim. Tanto buffet de tempo, tanto sangue em circuito fechado, tanta energia a redundar entre os hemisférios.
E uma culpa manhosa, a querer pegar-se com o bem estar, de só se estar assim. Queria correr entre as hipóteses, esgravatar o fim de tudo, aborrecer-me sem complexos, render-me às insónias cozinhadas por mim.
Hummmm….que se isto é egoísmo, aceito-o. Disposta a dar por permuta outro dos meus defeitos. Não há culpa mais honesta que a saudade de nós. E se o tempo me abraça a fazer doer é porque também ele sabe, que não há maior cumplicidade com a vida, que a viver assim.
Ui…..senão fosse este calor morno, esta culpa fria e este fervilhar de rumos. Porque se o corpo permanece obediente e se eu continuo sentada, a verdade levanta-se e acusa a Saudade.
De, só eu para mim.

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Sei bem, como as educo e deseduco.

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Sei bem, como as educo e deseduco.

E recolho o troco todos os dias, embora nem sempre, na justa medida do que lá colocámos em Amor. Mas isso eu também já sabia, porque antes de ser mãe eu já fui filha (da mãe).
Às vezes penso que as solto em demasia.
Sei que confio no mundo que me confiaram, e tenho a estranha sensação, que a sorte com que trabalhei, se estende como uma apólice de seguro sobre as minhas loiras.
Já tentei ser mais como achava, mas fala mais alto, tudo o que já sou. Não, não consigo prendê-las mais a mim.
Não consigo, não ceder à tentação de as ver dobrar seguras as esquinas, a atravessar confiantes os caminhos, a desenharem diálogos com as pessoas. E mais, não consigo ter medo de ser assim. Não consigo simular insónias com perigos e assombros. Não consigo pôr o coração ao batimento do pânico, de tudo o que pode ser, sobre tudo o que ainda não é.
E elas já são isso também:
A confiança em excesso, o medo que não se entranha, o sorriso preliminar e o passo acelerado para não perder pitada da vida.
E se há dias que sinto o “cagaço” de tudo o que arrisco, a maioria das vezes sinto a sorte de tudo o que recebo.
(Devo ter feito um Seguro do caraças!)

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Uma semana com o Pai, uma semana com a mãe.

11111160_1158834114142224_1778280671482826367_oHá três anos que vivia feliz da vida, na lógica da semana sim, semana não. Uma semana com o Pai, uma semana com a mãe. Quando o Pai das loiras vai viver para África do Sul, a minha vida muda radicalmente, e passo subitamente, da custódia partilhada para a total. Confortável na gestão espaçada do meu tempo, com uma quinzena mensal para a desresponsabilização sobre as rotinas, as compras, as aulas, os Tpc´s, as dores, as queixas, as festas e todos os afins sem fins que fazem parte do pacote da maternidade, “flipei”. Era o fim da minha bolha de oxigénio, uma contracção forçada sobre o meu tempo, um golpe à minha liberdade.

E a quente, sem qualquer mácula sobre o amor que lhes tenho, pareceu-me um dos maiores entalanços que a vida me ofereceu.
Resisti mas não havia nada a fazer.
Dizia a brincar ao pai: – Não me faças isso que corro o risco de me afeiçoar:)
Hoje quando as vejo agarradas como lapas ao pescoço do pai, quando o vejo inquieto tentando sorver-lhes a presença, o afecto, as histórias. Fixando-as com carinho para memorizar os traços, os sons, as vozes e o feitio. Penso que não saberia estar do lado de lá da saudade, longe das minhas duas fontes de vida. E ainda que haja dias, que tudo o que deseje é o regresso terno ao passado partilhado, sei que sou uma filha da mãe com uma sorte do caraças.

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Dias Duros

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Estes dias são duros. O sol brilha. O céu está lindo mas o dia é duro na mesma. O pai das loiras regressa a África em trabalho e a hora de despedida molha os olhos das minhas filhas.
Elas já sabem que agora é assim, e por tempo indeterminado a tristeza determina-se. Tento ser forte, mais um mês e estamos lá, à dobrar o cabo das tormentas, atrás da esperança que lhe ficou como nome. Hoje foi um dia duro.
Os braços não queriam largar. E ainda que eu lá estivesse como a representação de tudo o que ainda fica, pesava mais a saudade antecipada de tudo o que ia. As malas gordas à porta também não ajudavam, o olhar desviado do pai amigo, do pai aflito. O abraço que não quer apertar de mais nem desapertar de menos e o beijo que tem medo de se demorar sobre a lágrima. Devia ser a força, o esteio, o suporte seguinte, o colo eterno, mas quando o dia é duro, quando a água lhes inunda os olhos, e a voz treme nas coisas que quer salvar, eu acabo sempre, por me desmanchar um bocadinho. Agora já passou, vai passando, o avião já está no ar, vai voando, as saudades dissipam-se e os pés sobre a terra descobrem de novo o seu lugar.
O dia foi duro, sim.
Mas quem ama, sabe que o amor é mais.

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Diz a Camila: – Corneta! Gosto de Corneta.

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A Caetana pede-me muitas vezes para lhe dar uma irmã ou um irmão, já a Camila, soberana do seu lugar de “pequeno delfim” e do seu salvo conduto, treme, só de se imaginar entalada entre a primeira filha e a novidade da casa.
Por isso, quando a Caetana dizia hoje:
– Se a mãe tiver um filho…que nome é que damos se for uma irmã? Nós somos Caetana…e..Camila…ela podia ser Clara ou Carlota.
Diz a Camila: – Corneta! Gosto de Corneta.

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“QUASE” UM BOCADO

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O pai das loiras fez ontem anos e nós estávamos a banhos numa piscina interior num hotel fabuloso em Montargil e não fomos muito efusivas….
A verdade é que estávamos demasiado entretidas a expulsar os casais românticos da água quente.
Ainda lhe cantamos os Parabéns, mas os perdigotos de água, não lhe deram o compasso necessário para que ficasses convencido da sinceridade do nosso esforço.
Fiquei a pensar nisso.
O Viber também não ajudou e a rede nas planícies alentejanas é tão escassa como a juventude. E na viagem de volta, quando já parecia dar, viemos a conciliar o sono, com a paisagem pardacenta e a digestão das migas de espargos.
Como não te dissemos grande coisa ontem, dizemos-te agora, nesta carta aberta de Saudade, escrita a três mãos:
“Pai, tenho saudades tuas. Promete que quando voltares vamos brincar uma semana inteira. A mãe diz que está quase. Mas ainda falta “quase” um bocado” Camila
“Pai, ontem sonhei contigo. O Eugénio (o padrinho) tinha ido buscar o pai ao aeroporto e feito uma surpresa. Quando abri os olhos e vi o pai, fiquei tão feliz. Depois acordei e percebi que era um sonho. E fiquei tão triste. Tenho saudades do Pai. Muitas. E não quero dizer mais nada. Quero que volte.” Caetana
“Gonçalo, Muitos Parabéns! Sei bem o que te custa passar o dia de anos sem as miúdas. Elas têm muitas saudades tuas.
Mas o bom disso é saber que só sentimos muitas saudades das coisas que nos fazem muita falta. Volta rápido e bem.” Isabel

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Um mês intensivo de loiras

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E agora que estou na recta final de um mês intensivo das loiras o que é que me apraz dizer? Sem filtros e com toda a honestidade que devo à minha existência singular, aleatória e privilegiada nesta terra: – Estou estafada…Já não tenho imaginação para conceber refeições diferenciadas, já esgotei o meu repertório de histórias de embalar, já drenei a minha capacidade de montar kits matinais e de andar à procura de sapatos solteiros, de dar banhos, secar dos banhos, despiolhar, pentear, amaciar, dar de jantar, planear as lancheiras, separar os almoços, descascar fruta, comprar manhãzitos, estrelitas e chocapic´s, como quem vai viver para um abrigo nuclear. Estudar, mimar, dar, estar, preparar, salvaguardar, ir buscar e levar, e todos os outros verbos irregulares que fazem da mais nobre actividade de mãe, a mais cansativa delas. Estranhamente, e com saudades depuradas da minha semana alternada, superei-me. Consegui manter a minha integridade e a das crianças. Arrisco dizer que me descobri no domínio de faculdades e competências que ou eram inexistentes ou estavam adormecidas. E mesmo naquelas noites em que tudo o que sonhava era com o vosso sono, eu acordava no dia seguinte, com toda a energia reposta para ser vossa mãe outra vez.
O amor que vos tenho é um filho da mãe, fibroso e resiliente. Resmunga como um velho chato, reclama com a histeria de uma donzela “apanicada”, esperneia como uma criança apertada, mas supera-se, na sua ousadia cresce, nas minhas costas fermenta e para meu espanto suplanta-se.
E a cobro do desejo mais insólito de provar a minha incapacidade para o exercício, e sem cair no exagero de dizer que nasci para isto, descubro na constância do vosso amor, a inconstante certeza do meu.

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Tão desconcertante como o teu feitio

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Estavas muito concentrada na mesa do teu quarto…
Há demasiado tempo para ser fruto de uma inspiração para o Estudo ou um ataque súbito de consciência para com o Conhecimento.
Aproximei-me, espreitei por cima do teu ombro e vi que estavas a escrever numa tabela. Mas como tens uma letra tão desconcertante como o teu feitio, não lhe consegui adivinhar o significado nos caracteres.
Perguntei-te o que era. Viraste-te para mim e com o ar mais sereno do mundo, disseste-me que era uma tabela comparativa.
Apontando-me explicaste:
Na coluna do X os nomes dos rapazes, na coluna do Y os pontos a favor e os pontos contra cada um dos rapazes. Devo ter feito um ar estranho, mas não tão estranho, que achasses que quando era catraia era diferente de ti, porque quando te viraste para concluir o exercício disseste:
– Ó mãe, não me digas que nunca fizeste este exercício?
(se ela imaginasse os dissabores que me teria poupado uma inteligência lógico-matemática sobre um coração poético)
Respondi:
– Ainda faço minha filha. Faço sempre que é preciso:)

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Não vivo sem…

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Não vivo sem tempo.
O tempo que vive acima dos ponteiros do relógio, aquela medida unitária que faz parelha com o destino que me compete cumprir.
O tempo dos meus sonhos, das palavras encavalitadas no bico da minha caneta, das imagens que projecto na lente para as minhas memórias futuras.
Não vivo sem sentir o vento a empurrar-me contra os obstáculos de que me faço vida.
Não vivo sem amor desprendido, sem abraços apertados, sem poder dizer aos que gosto o quanto me fazem falta e sem sentir a falta que me fazem os que gosto.
Não vivo sem o desembaraço primário de achar que a vida é uma aventura mascarada de rotina.
Não vivo sem Liberdade, a mesma que dá prazer ao pé descalço, a mesma com que vejo de mãos dadas o tempo fluir, a mesma que me acorda em sobressalto para me lembrar que posso ser tudo.
A liberdade que me engasga os deveres e me acorda os sentidos para todos os momentos de prazer.
Não vivo sem o presente, aquele que é o agora sem a culpa do que poderia ter sido, e sem os complexos de tudo o que já foi.
Não vivo sem canetas, blocos, máquinas, bonés e as bugigangas que se estendem sobre os meus membros com a aspiração de serem tentáculos de mim.
Não vivo sem o colo do copo de vinho onde naufrago a minha poesia, nas noites em que sonho ser escritor. Nem sem os livros que me amarram a 1000 vidas que não conheci.
Não vivo sem música, sem a pauta curvilínea dos acórdãos que fazem banda sonora onde me encontro, onde vou, onde sonho e onde me faço pessoa.
E não vivo sem viagens, aquelas que vão ao fundo de nós, dos outros e do mundo.
Não vivo sem pessoas, os cofres máximos de inspiração, transpiração, fontes com a mácula máxima da vida, cortesãos da minhas letras.
E não vivo sem gargalhadas porque são o compasso mais saudável de existir.

*Enquanto embaixadora da RVCA e a convite da Ericeira Surf & Skate lançarem-me o desafio de escrever sobre o tema “Não vivo sem” ‪#‎naovivosem‬ e traduzi-lo numa fotografia. Falta o presunto:)

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