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Atestada de amor

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O pai das loirinhas está fora por um mês.
Acima da boa diplomacia, uma franca amizade, e como era trabalho, e não uma escapadela furtiva as ilhas Fiji, condescendi (se bem que sou sensível ao argumento das viagens furtivas e não havia propriamente outra mezinha).
O que significa que a custódia partilhada passa a ser total, por 30 dias úteis e inúteis.
Tenho a certeza que o pai das loiras já sabe que vou exercer esse crédito em igual desproporção:) Ainda não sei se vou permutar por 2 meses na Índia* ou por idas semanais ao SPA.
Até lhe disse, ao jeito de brincadeira, que ele não me podia fazer isso, porque eu corria o risco de me afeiçoar.
Afeiçoada eu já estou. A elas e aquela pausa negociada que nasceu do fruto da nossa separação. Devia respirar compassadamente, mas estamos a meio da “experiência” e eu já arfo.
A respiração ordeira dos primeiros dias, os gestos delico-doces, o gosto das primeiras fichas de férias e o leito partilhado a três é intervalado com doses intermitentes de impaciência.
É certo que vocês sabem que eu vos amo incondicionalmente, daí a corrupção ao desvario deste meu lar. Quando entro em casa ergo logo as mãos ao jeito de rendição e quando vos beijo antes de dormir, adormeço os meus desejos no prolongamento do vosso sono. Tenho tentado ser ambos, safa-se, mas não safa tão bem.
Dar-me-ia uma certa soberania sobre a tarefas se vocês não andassem sempre atrás de mim como os filhos de uma pata.
Deve ser reflexo óbvio da falta do Pai Pato.
Quando falamos com o “daddy” por Skype tenho vontade de as empurrar para dentro do monitor. E tenho a certeza que o olhar enternecido do progenitor, se faria real, se as pudesse receber do outro lado.
Isso consola-me e segura-me.
Ainda não lhes perguntei esta semana se sou boa mãe.
Não vou arriscar a demência da culpa de tentar ser tudo.
É o amor. Ninguém disse que era incólume.
Esta é a vossa mãe. Meio avariada, meio desvairada mas atestada de amor.
E sim pai, elas sentem muito a tua falta.
E creio que a mãe Pata também.
P.S:* India, já decidi:)

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FIM.

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Sabem aquela raiva “move-dentes” que se apodera da voz de uma mãe, quando as crianças, depois de deitadas, irrompem no nosso espaço de inclusão intelectual e espiritual?
Quando interrompem o processo criativo, seja ele qual for, a leitura emocionada de um diálogo ou nos obrigam a congelar um filme num momento de acção crucial? Ou a mudar subitamente de canal, quando o calor se apodera? De certeza que sabem.
Foi justamente num desses momentos, que a Caetana decide abrir a porta do meu escritório, pela quarta vez.
Levantei-me de rompante, mal senti os seus pés descalços a massajar a madeira. Bati com as mãos no tampo, para mostrar tudo o que iria acontecer a seguir. E quando me preparava para engrossar a voz, vejo a sua mão tremelicante a largar um papel sobre a porta entreaberta e o seu corpo, a dar a curva num ápice, deixando a sombra para trás.
O papel dizia “Abre”.
Hesitei. Voltei a sentar-me na cadeira e li o bilhete.
Em vez de estar a dormir, a loira tinha decidido transcrever um poema.

“Tu me chamas sobre as águas
Onde os meus pés podem falhar
E ali Te encontro no mistério
No mar profundo
Aguento. E pelo Teu nome vou chamar.
Para lá das ondas vou olhar.
Se a maré subir. No Teu abraço vou ficar.
Pois eu sou Teu. E Tu és meu
No mar Tua graça é abundante. As Tuas mãos vão-me guiar.
O medo acampa à minha volta.
E Tu não me falharás”

Óbvio, que amaciei a fera interna. Que me esqueci do que estava a fazer. Que encolhi a raiva a um canto e deixei transbordar a boa lamechice do orgulho maternal, pela sensibilidade plasmada da minha cria.

Mas o que safou a loira de uma “coça” não foi o poema transcrito de forma tosca. Foi aquele remate final, quando a voz do poeta, dá lugar às considerações da loira. Aquela frase de aparência tão ingénua, quanto sábia, que lhe valeu um beijo demorado na testa e a amnistia absoluta da sua insónia.

FIM. (escreveu ela) “é lindo não é?”

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