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NÃO, NÃO ANDO A FAZER M*A.

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Hoje publiquei uma frase na cronologia do Pedro a dizer: “Saudades tuas”.
Recebi dois telefonemas: Uma amiga que perguntava se o Pedro estava fora e outra, que com ironia sarcástica (que só a a amizade longínqua permite) comentava: – Deves andar a fazer m*a para tanta declaração de amor.
Ri-me. Não. Respondi. Ando a “fazer bonito”. Estou crescida, rematei.
Sei que nunca fui pessoa de grandes declarações públicas de amor, com excepção honrosa ao sangue do meu sangue, nas pequeninas pessoas das minhas filhas. Mas o tempo passa, sabes. Vamo-nos tornando mais senhoras da nossa vida, proprietárias orgulhosas das nossas conquistas, soberanas no que sentimos, orgulhosas por dar, vaidosas de puder estender a partilha aos que gostamos. Ao principio, revia com desconfiança as frases, tudo parecia excessivo, meloso, até falso. Mas ao primeiro “Enter”, é como o lacre numa carta ida. Sabe tão bem, que chega a virar vício. Não me interessa quem diz que não ha pachorra para isso. O que já não tenho mais mesmo é pachorra para viver por menos. Não sei o dia de amanhã, nem me angustia que as palavras lançadas hoje possam perder sentido nas coisas que lho retiram. Hoje amo, hoje gosto, hoje sou e hoje sinto. E sem qualquer eminência que o passar do tempo condene o que o hoje dita, lanço-me sem filtros ao amanhã.
Não, não ando a fazer m*a. Repito.
A mesma com quem já feri, quem um dia esteve uns passos largos de confiança à minha frente.
E não me venham com histórias. Nada é mais falso que acreditar que a verdadeira juventude da vida esteja na rebeldia dos erros.
E se assim for, que venham daí todas as rugas da verdade. Porque hoje, tudo o que me parece excessivo é o que guardo sentido sem o dizer. “Saudades tuas”.

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“Bem mais grande”

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Não te via há uma semana.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Mas não sei se sei tudo o que isso quer dizer.
Pareces-me sempre enorme, “mais grande” como já nem dizes.
Já falas com tanta certeza das coisas.
E já me gozas com piadas próprias.
Rimos juntas de coisas do saber e do que ninguém sabe.
Às vezes queria ser a tua amiguinha dos recados de papel.
Tenho muitas saudades do monopólio do destinatário.
Já tens 10 anos.
Não é nada. Eu sei.
Tens umas pernas compridas e umas ideias que as ultrapassam. Os teus cabelos já se mexem com coreografia e tu já te vestes como se fosses directa para o Instagram.
Escolhes os teus livros, as tuas roupas, as tuas amigas e as tuas ideias. Mas sei que se te dessem a escolher a progenitora me escolhias a mim.
E não tenho qualquer dúvida, que era a ti que te escolhia mesmo quando me sinto a competir com o mesmo mundo grande que te dei a descobrir.
Já tens 10 anos.
Não é nada eu sei.
E o meu amor por ti é sempre “mais grande” como já nem dizes.
Digo eu por ti que já sou “bem mais grande” que 10.

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Ou vai ou racha

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Não fotografo muitos casamentos.

Nem tenho forma possível, de garantir que os que fotografo duram até ao fim. Sei que se pudesse, incluía no Pack dos serviços um voucher para a eternidade.

Gosto de pensar, falar e escrever sobre o Amor, mas é difícil adjectivar uma palavra, que se auto-define de forma tão hermética, que cada um tem a liberdade certa, de o sentir à sua maneira, sem que esta nunca perca o direito de se chamar assim, Amor.

Hoje num almoço com um grande amigo, trocávamos opiniões sobre o divórcio. O divórcio não vive nos antípodas do amor, mas por norma acontece quando alguém deixa de amar, embora a sequência de acções que o desencadeiam, seja muitas vezes, de índole menos nobre, que a pura escassez do sentimento. Quer eu, quer o meu amigo, somos filhos honrosos da triste estatística. Cada um com a sua valsa, cada um com a sua história, cada um dono da sua narrativa, maestro ou orquestrante do seu fim.

Não se perdoa uma vida sem amor, por isso é tão fácil de encetar uma conversa sobre um relacionamento, copulando-a convenientemente à drenagem do sentimento.

Sou uma liberal, serei sempre uma liberal, no sentido mais moralmente lato da definição. A que permite que o ser humano seja senhor do seu destino, da sua liberdade e da pureza das suas opções, mesmo que algumas sejam inconvenientes à conveniente felicidade dos outros.

Não sei qual é o recheio do amor, tenho sempre medo de o partir, mas tenho a certeza que há um inquilino gigante que vive lá dentro, a Verdade. E mesmo quando a verdade dói, ela é sempre merecida, nem que seja apenas, porque é pura e limpa, como o amor que move os homens, que se movem pelas melhores razões.

Hoje ao almoço, liamos numa estatística da Pordata (INE-DGPJ/MJ) que em 1960, 1% em cada 100 casamentos acabava em divórcio, e que em 2013 esta percentagem disparou para 70,4%.

Com alguma ingenuidade poderia acreditar, que isto só aconteceu porque as pessoas são mais verdadeiras, mas a vida já me lavou os olhos.

Também não acredito na voz monocórdica, do arauto da desgraça, que apregoa o síndrome do egoísmo, os vícios da sociedade moderna e as tentações da era digital. Acho que nunca saberei bem porque é que o amor acaba. Mas é sempre uma morte que me entristece.

Porque é que há casais que se enroscam no enlace narrativo da vida, até velhinhos? E outros, que se desenroscam na primeira curva apertada da vida? O que sei, é que cada vez que vejo dois velhos apaixonados, invejo-os. Mesmo ignorando, que se conheceram numa excursão ao Machu Pichu no verão passado.

O amor não é uma opção, é um sentimento. Não se faz download, nem upload de novas versões. Nem se desinstala, só porque se quer. Ele vem quando quer, e parece que parte da mesma maneira.

E se às vezes não parte, acho que é porque a vida deu a esses sortudos, o engenho do melhor nó da vida, o mesmo com que se amarra uma mãe a um filho.

Um dia, também vou ser uma velhinha agarrada ao meu velho. Também eu, farei as delícias da juventude em turismo, na digestão de um almoço angustiante.

E nessa altura, o peso leve do meu corpo envelhecido, não vai sentir o peso profético da estatística.

Serei só eu e tu, na “insustentável leveza do ser”, com um recheio de verdade, e um nó feito para a eternidade.

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