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CADA RELAÇÃO ENCERRA A SUA VERDADE

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Não sei se os homens e as mulheres vêm de planetas diferentes. Os que conheci, partilharam todos o calor do útero de uma mulher. Sei que por norma, nós mulheres falamos mais, se calhar demais. Ou falarão eles a menos, e do menos que nós queremos ouvir.
As melhores relações que conheço são participadas dizia uma senhora bem posta no café, mas não sei bem o que é que isto quer dizer. Acredito na democracia de uma relação, o termo faz-me sentido. Sou uma liberal e gosto de me privatizar na intimidade com a pessoa que amo. Mas preciso que me deixem respirar entre as braçadas da vida e os abraços apertados.
Às vezes, como todo o eleitor experimentado gostava de mergulhar numa monarquia de cordel. Mais precisamente, na pele da princesinha enfastiada, que só tem que escolher a cor do recheio do éclair.
Queria um décimo da autoridade que exerço sobre as disciplinas da minha vida.
O sonho de habitar numa corte….e só ser invadida, de quando em quando, pelo calor reconfortante das decisões já tomadas.
E queria tanto, mas tanto, que os eleitos do nosso coração, percebessem que há um Pause para cada Play, que a forma esfuziante com que exibimos os nossos feitos e as descrições adjectivadas das nossas acções infinitas, não eliminam a necessidade do cetim almofadado e da gargalhada do bobo.
É uma sensação tramada, chegar ao alto ermo da montanha e ter inveja do pastor deitado no seu sopé.
Fica a parecer que a senhora liberal e “bem-posta” do café curto, quer voltar à caverna burguesa da princesinha.
Quando tudo o que ela queria era ter um décimo da autoridade exercida sobre as disciplinas da sua vida.
Cada relação encerra a sua verdade.
E os universais são tão perigosos como qualquer frase que comece com “ele era ideal para ti…”.
Talvez a verdade da minha esteja naquele café liberal bebido como um bobo, no sopé daquela montanha à sombra de um castelo, na companhia acetinada de um príncipe com ideias de pastor.
Ou talvez…eu queira apenas um décimo da autoridade que exerço sobre as disciplinas da minha vida.

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Não é fado, é feitio

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Não é fado é feitio.
As minhas amigas, não todas, não tantas, mas ainda assim muitas, queixam-se (não no sentido lamurioso e fadista da dor, mas como não encontro melhor palavra: Queixam-se. Enfim numa variante misericordiosa: Falam com alguma pena da incapacidade de improviso e iniciativa dos homens com quem estão. Reconhecem-lhes qualidades imediatas, que elogiam como feitos epopeicos, mas são as primeiras gladiadoras de arena quando se trata de apontar defeitos. Provavelmente eu sou igual. Há uma crueldade tão limpa no discurso de uma mulher que é uma pena depurá-lo. O mais engraçado é que o discurso entre duas mulheres na partilha dos vinagres da relação é mais limpo, que a reclamação em relação, apresentada na hora. Isso não se explica apenas pela combustão do momento, o sangue em espuma quente, que faz de qualquer mulher gaga um líder (numa TED talk). Eu desconfio que a irritação feminina produz um tipo de calor que nos cozinha a gramática no cérebro. Sai o cozinheiro da tasca, entre o Michelin da esquina.
De repente a dor metamorfoseia-se nas frases mais rebuscadas, nas metáforas mais bonitas. Inebriamo-nos na vaidade de nós mesmas. Tornamo-nos cúmulo: Apresentadora e ouvinte. Há uma luz que desce, parece que desce, a voz ganha corpo, parece que ganha, os adjectivos sucedem-se, parece que nascem. Queremos gravar cada frase dita, crescemos em altura, fermentamos nas palavras. O silêncio do outro lado confirma que nos isolamos na margem da meta, agora é o sprint. Fechamos os olhos, erguemos o peito, avançamos a perna, o galope, o compasso, há música na nossa voz. E aqui vai disto:
“Não te sinto. Estás. Mas depois ausentas-te”
“Há uma distância fria entre nós”
“Precisamos de mais poesia”
“Queria sentir-me a voar.”
Torna-se indiferente se o outro permanece, porque a sedução do discurso feminino é uma actuação a solo. O homem pressente uma espécie de prazer egoísta, estanca, queda-se. O espasmo há de passar, crê. Mas quando a luz sobe e a última frase é proferida como selo em lacre, a mulher olha, cala e devolve. E tudo o que oferece ao homem em palco é um pedido de desculpas em forma de aplauso.

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