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AS ESPINHAS DO OFÍCIO

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Tenho um tremendo respeito pelos pescadores, admiração será melhor palavra. Respeito, tenho por todos aqueles que se atiram a remover a terra e ao mar revolto em busca de um sustento.
Mas há uma sensibilidade fina mascarada de rudeza em cada aldeia de pescadores. Há uma timidez feita de cal e esforço que suspende o sorriso fácil. Há muita marca no corpo a lembrar o desfecho de uma história que se quis diferente.
No emaranhado das redes adivinham-se as correntes da vida.
E em cada nó apertado da linha prende-se a fome, a vontade e a incerteza.
Comecei por lhes pedir se podia fotografar as mãos.
As mãos de um pescador são os seus olhos.
Deram-me um “sim” rouco e continuaram a costurar de pé, com os pés descalços sobre uma cordilheira de redes coloridas, como se fossem costureiras apressadas antes do baile final.
Há muita poesia na pesca.
As aldeias de pescadores têm o perfume das escamas, misturado com as entranhas do mar a secar na areia, mas a mim encantam-me. E nada me constrange no seu silêncio, porque eu sei que por dentro, todos trauteiam na mesma canção.

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– Às vezes não dou conta do recado.

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Liga-me uma grande amiga, estava cansada, talvez aflita.
Estava às compras no supermercado com os filhos, quando a filha lhe pede para segurar qualquer coisa na mão. Disse-me aflita, talvez mais cansada que aflita, que tinha perdido o que a filha lhe passara dois minutos antes para as mãos. Disse-me ao jeito do desabafo mais sincero:
– Às vezes não dou conta do recado. Foram só dois minutos e eu perdi o que ela me deu.
A miúda ficou chateada, talvez aflita, talvez mais chateada que aflita. A mãe ficou de rastos.
Tenho tantas falhas para a troca que não tive que procurar muito pelo equipamento do ballet que não levei no dia em que havia sarau, nem tive que puxar muito pela imaginação para me lembrar que cheguei atrasada ao colégio no dia a seguir à reunião de pais, em que falaram da pontualidade, nem tive que esgravatar para lhe contar sobre as vezes seguidas em que me esqueci de reforçar o lanche e elas se queixaram de fome, nem as vezes em que servi Estrelitas ao jantar, na vez dos brócolos, porque me esqueci de os cozer. Nem aquela vez que fingi que não havia trabalhos de casa porque não tinha energia para os fazer, nem as vezes que saltei o banho, porque não tinha paciência para lhes lavar os cabelos.
Disse-lhe só: – És uma mãe do caraças. Acredita que se não o fosses, não era a coisa que ela te deu que tinhas perdido. Era a memória do que perdeste.

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