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Sorte: uma merda.

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Dizem que tenho sorte. E eu fui procurar a definição no dicionário, para saber em bom português, exactamente o que tenho.

Dentro das 13 hipóteses que me dá o dicionário da Língua Portuguesa, houve duas que me chamaram a atenção: 9. Lote de Fazendas. 10. Sorteio militar para determinar, de entre os mancebos apurados, aqueles que serão efectivamente incorporados. Todas as outras (destino, fado, ventura, felicidade) são propriedades que não nego, com excepção feita à fortuna (se por fortuna se entender o dourado das moedas, porque se for o ouro dos cabelos das minhas filhas, sou bilionária).

E o que é que eu sei da sorte que tive, o mesmo que me diz o Senhor Zé da leitaria, Trabalho. A mesma sorte que só no dicionário é que chegou ao pódio antes do suor.

Como não gosto do discurso da vítima, filha menor da família disfuncional, como sei que a tristeza de uma história predispõe para a clemência, e da clemência à brandura, perde-se logo a bravura.

Prefiro dizer que a sorte que tive, se é sorte que é, tem tudo a ver com a forma como encaro, e como me faço à vida. Essa “filha da mãe” indomável que nos diz ao ouvido que podemos ser tudo, e depois não parece dar-nos tudo o que precisamos para sermos exactamente o que queríamos. Talvez um dos bons legados que posso deixar às minhas filhas seja a forma fermentada com que fiz dos meus fracassos a sombra dos meus dias felizes. Talvez lhes possa contar como fui teimosa em escorraçar a tristeza, e talvez lhes possa dizer que nunca me apoderei de nenhuma história do passado, que nunca a embrulhei em trauma, e que nunca a servi como aperitivo antes de mim. Que a maior lição que aprendi veio do sorriso, de fugir da água morna dos dias tristes, das pessoas tristes e das histórias tristes. O que me ensinaram as pessoas que passaram pelas histórias mais tristes foi a esperança que lhes valeu, os dias em que foram felizes e a força que tiveram para o resgate desses dias.

O segredo talvez seja fazer do facto mau, o adubo possível do que é bom. Não é o excremento que fortifica a terra?

E a Sorte? Uma merda.

 

 

 

 

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Devo estar a envelhecer (bem).

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Às vezes fico olhar para ti de costas enquanto te afastas, a medir o comprimento das tuas pernas, o teu balançar, num “galanço” tão espontâneo, que se não fosse de mãe querida, era de homem descarado.
Às vezes dizes: – Ó mãe para!
Desculpa-me, por me deter muito tempo fixa no teu rosto.
Amnistia as minhas mãos por se demorarem a sentir o diâmetro pequenino dos teus braços. Perdoa-me se te pego ao colo e se elevo como uma criança pequena, só para ter a certeza que ainda me sobra força para te carregar.
É tão engraçado, porque eu sempre fui rabugenta com as contemplações demoradas de familiares, enquanto exprimiam as mesmas frases:
– Está tão crescida!
– Pareces mesmo a tua mãe.
– Vai ter o nariz do do pai.
– As mãos são iguais às da avó Margarida.
Sempre resmunguei, de mim para mim, que esse comportamento era revelador da idade avançada de quem o proferia.
E dizia para mim mesma, que quando crescesse nunca o faria.
Com o tempo, também eu aprendi, que envelhecer traz o custo dos caldos e das ramelas nas palavras. E se, quando era criança, eu condescendia, era porque havia em todos eles um universo de referências, que me pesava e me afligia. Por isso, quando dou por mim a observar-te de forma demorada e a exprimir de forma antiquada, não é só porque envelheço em caldos e em palavras, mas porque encontro no teu balançar de menina, a criança que eu já fui.

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Teatro q.b.

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Quando a Caetana tinha 3 anos, apanhei-a na casa de banho a apertar um tubinho de soro sobre os cantos dos olhos, simulando lágrimas, ao mesmo tempo que o seu semblante carregado, assumia uma expressão teatral de tristeza.
Deu-me vontade de rir. Deve ser coisa de miúda pensei.
Para não interromper de imediato a performance esperei.
Quando entrei na casa de banho, jorravam rastos de soro nas bochechas. Perguntei-lhe o que é que estava a fazer, e ela respondeu que estava a fingir que chorava. Disse-me toda contente, que ia levar para a escola o tubinho e enganar os amiguinhos.
Toda a gente gosta de uma boa partida. E serei sempre uma encorajadora de jogadas de sentido de humor, mas não se deve simular tristeza quando ela não existe. Expliquei-lhe que provocar emoções de pena ou tristeza com sentido estratégico não era coisa de pessoa boa. Como ainda é miúda, sei que fará uso devido do simulacro do choro de forma espontânea e natural, numa circunstância que exija o teatro das emoções para salvar o melhor sentido das coisas. Com 3 anos achei claramente prematuro estimular a performance. Passaram-se 6 anos. E hoje com 9 a Caetana vai iniciar um workshop de teatro.
E eu estava aqui a pensar, que durante a hora e meia que ela vai estar a encenar, talvez seja sensato ir para uma igreja e rezar.:)

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