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O cabelo cresce loirinha

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Andaste a fugir à tesoura durante 6 meses.
Quando o pai cá esteve, passei-lhe a incumbência, mas a agilidade feminina levou a melhor e regressaste à mãezinha com o mesmo cabelo aciganado com que te entreguei ao pai.
Ontem cedeste aos meus argumentos e deixaste que eu te cortasse o cabelo depois de despejares dois quilos de máscara hidratante, que fez com que a Camila desse um duplo mortal na banheira logo a seguir.
Tinhas o cabelo miserável, mas tu achas que eu exagero na adjectivação e quando viste no chão os cinco dedos pareceu-te toda uma pata de elefante.
Rebentaste em lágrimas, agarraste as pontas molhadas entre os dedos e soluçaste, como se fosse um membro amputado e uma despedida para sempre. Não contente, disseste-me que te tinha arruinado o dia, a semana e a vida (quem sabe).
Sou mulher, minha menina, já chorei muita franja de escovinha cortada pela minha mãe, já saí do cabeleireiro com vergonha de me ver reflectida nas montras e já roguei pragas ao impulso colectivo das tintas de supermercado. Faz parte. O Pedro estava surpreendido com o nível da crise (tem dois filhos rapazes) com a grossura da lágrima e com o exagero da adjectivação, que é o melhor teste de ADN em matéria de crise:)
Foram 15 minutos de crise até que o mundo ficasse tão acetinado como a máscara que colocaste no teu cabelo, foram alguns duplos mortais na minha caixa torácica e até valeu abrir uma colheita especial de 2011 (sempre fomos boas nas boas desculpas).
O cabelo cresce loirinha e felizmente, nós também

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Não é fado, é feitio

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Não é fado é feitio.
As minhas amigas, não todas, não tantas, mas ainda assim muitas, queixam-se (não no sentido lamurioso e fadista da dor, mas como não encontro melhor palavra: Queixam-se. Enfim numa variante misericordiosa: Falam com alguma pena da incapacidade de improviso e iniciativa dos homens com quem estão. Reconhecem-lhes qualidades imediatas, que elogiam como feitos epopeicos, mas são as primeiras gladiadoras de arena quando se trata de apontar defeitos. Provavelmente eu sou igual. Há uma crueldade tão limpa no discurso de uma mulher que é uma pena depurá-lo. O mais engraçado é que o discurso entre duas mulheres na partilha dos vinagres da relação é mais limpo, que a reclamação em relação, apresentada na hora. Isso não se explica apenas pela combustão do momento, o sangue em espuma quente, que faz de qualquer mulher gaga um líder (numa TED talk). Eu desconfio que a irritação feminina produz um tipo de calor que nos cozinha a gramática no cérebro. Sai o cozinheiro da tasca, entre o Michelin da esquina.
De repente a dor metamorfoseia-se nas frases mais rebuscadas, nas metáforas mais bonitas. Inebriamo-nos na vaidade de nós mesmas. Tornamo-nos cúmulo: Apresentadora e ouvinte. Há uma luz que desce, parece que desce, a voz ganha corpo, parece que ganha, os adjectivos sucedem-se, parece que nascem. Queremos gravar cada frase dita, crescemos em altura, fermentamos nas palavras. O silêncio do outro lado confirma que nos isolamos na margem da meta, agora é o sprint. Fechamos os olhos, erguemos o peito, avançamos a perna, o galope, o compasso, há música na nossa voz. E aqui vai disto:
“Não te sinto. Estás. Mas depois ausentas-te”
“Há uma distância fria entre nós”
“Precisamos de mais poesia”
“Queria sentir-me a voar.”
Torna-se indiferente se o outro permanece, porque a sedução do discurso feminino é uma actuação a solo. O homem pressente uma espécie de prazer egoísta, estanca, queda-se. O espasmo há de passar, crê. Mas quando a luz sobe e a última frase é proferida como selo em lacre, a mulher olha, cala e devolve. E tudo o que oferece ao homem em palco é um pedido de desculpas em forma de aplauso.

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