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COM TODOS OS DENTES

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Raramente se ouve a expressão “homem maduro”. Madura é normalmente a fruta e a mulher. Desde que me lembro, que oiço as pessoas dizer que as meninas são mais maduras que os rapazes, numa idade em que tudo o que deviam ser era fruta verde. Depois crescemos, de meninas passamos a mulheres e o epíteto de madura, ganha a forma de uma pessoa densa.
Não sei se quero ser madura. Não, sem antes perceber se madura é como a fruta macerada que ganha manchas acastanhadas do calor e da apalpação. Preferia quando me portava bem e as tias “maduras” me diziam apenas:
– Estás uma menina crescida.
Dessa maturidade marcada que vem do uso excessivo não gosto. Mas adoro o pressuposto da mulher vivida, embora quase todas estas expressões remetam para um universo relacional cheio de peripécias e meios finais. No fundo, acho que não gosto de ambas as expressões: “mulher madura e vivida”, soa-me logo a alguém de casaco com borbotos, ombros curvos, muita base, olhar demorado sobre o chão e o infinito.
E quando oiço dizer ela é muito mais madura do que ele, penso que isso deverá reflectir 99% das relações que conheço.
Talvez tenha dado jeito à economia forreta das relações, que as mulheres sejam maduras há muito mais tempo que os homens. Talvez dê jeito, ao desmazelo fantasioso de alguns habitats partilhados, acreditar que todo aquele tempo se viveu com o Peter Pan. Mas isso não faz da mulher madura um Capitão Gancho, faz nos pesadas, complexas, empedernidas.
Eu não quero ser mulher madura, quero ser a Windy descalça no parapeito da janela, pronta a voar na leveza dos sonhos que não envelhecem. Eu não quero ser mãe de filhos e de marido.
Essa maturidade camuflada em competência, eu dispenso.
Até porque consta, que para ser dispensada, basta apenas não crescer. Então talvez eu prefira a solidez altiva da fruta verde, à maça caída sobre o chão. Mesmo que isso signifique que numa só trinca venha o fim de toda a dentição.
Porque a verdade das boas relações é que elas se querem vividas com todos os dentes.

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As notas do 2º Período

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As notas do 2º Período não foram grande coisa cá em casa. Questionei a Camila sobre a negativa a matemática e o suficiente a português.
Responde-me de dedo em riste e maõzinha na anca (à Alfamista que é):
– Ó mãe, mas não é tudo mau…eu sou boa na Expressão.
Que expressão perguntei eu?
– Todas mãe! Expressão dramática, musical, teatral, plástica e física.
E decidi não me expressar mais.

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“Se um dia voltar a casar…”

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Se um dia voltar a casar, vou querer vestir-me de palavras.
Não há nada que bata um bom discurso.
Aliás, deliro até com os maus, desde que na tentativa haja depósito atestado a sentimento.
Poiso sempre a máquina, o olhar e delicio-me nas promessas encaixadas na voz tremida. Perco-me no embaraço comovido da noiva e do noivo. Procuro-lhes as certezas com que as farei minhas.
Imagino-me sempre a mim, de mãos ligeiramente suadas, à procura de um olhar âncora nas mesas e das tuas mãos.
Ensaio às palavras que direi: Aquela metáfora chave, aquele episódio, aquela manhosice nossa, que nos torna um par único num momento ímpar.
Dizem que “as palavras leva-as o vento”, eu levo-as todas para mim.
Todos os casamentos têm o seu protocolo, mas nem todos têm discurso. Aquele momento único que não é passível de ser fotografado de forma generosa, porque a força transparente das palavras, não as faz visíveis aos olhos da máquina.
Eu acho que em todas as celebrações se deviam trocar palavras. Ninguém devia ter medo das baboseiras que sente, num mundo tão carente de expressão. Não levamos quase nada daqui, uma delas é a fortuna acumulada, e outra são as palavras que ficaram por dizer. E o mais lixado é que as palavras também são gramática na relação. Senão se pontua na altura certa, corremos o risco de não fazer sentido mais tarde.
Ilan, o noivo da fotografia, ergue-se, falou alto de perto, e mesmo quando a voz lhe tremeu, tudo parecia tão bem edificado no que queria dizer, que me comovi. E mesmo nas palavras mais simples: “És a mulher que sonhei para mim.” Havia aquele depósito sem fundo de amor e de fé. O mesmo depósito com que se atesta o carro para uma viagem de sonho.
Tenho muitas vezes insónias, mas não conto carneiros, teço discursos, ergo-me, suo da alma e das mãos, e imagino-me assim, vestida com as palavras que não quero guardar para mim.
Falem sff.

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