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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.

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Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.
Ainda não sei bem o que é o que o tempo nos queria dar quando nos juntou. Não percebi o que é que a vida nos quis oferecer, nem o que é que nos tirou. Ainda não sei qual é a lição que vou levar do tempo. Nem por quanto tempo o vou sentir, com esse nome que se dá às coisas sem nome que se demoram em nós.
Não sei se o lucro infindável de tudo o que poderia ter sido, vai ser o melhor trunfo sobre tudo o que realmente foi.
Às vezes confunde-me não ter dor concreta, senão o vazio.
Ás vezes perco-me a recordar, sabendo que a minha imaginação generosa, convida e entrar no caos das memórias, cenas que nunca tiveram espaço, tempo ou circunstância.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Porque a paixão não é amiga dos arquivos, porque as borboletas não fazem ninhos em pastas de computador.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia porque a força do que é agora, não se deixa embebedar pela promessa do que pode ser.
Mas eu não me importo.
Nem me importo das saudades que tenho, porque lhes reconheço um capricho de uma história que não cheguei a viver.
Ás vezes procuro-te no amanhecer, só porque preciso para o meu sono um pouco da nossa escuridão.
Eu sabia que nunca te ia tirar uma fotografia.
Mas sempre soube que podia escrever o texto que quisesse sobre ti.

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Não é fado, é feitio

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Não é fado é feitio.
As minhas amigas, não todas, não tantas, mas ainda assim muitas, queixam-se (não no sentido lamurioso e fadista da dor, mas como não encontro melhor palavra: Queixam-se. Enfim numa variante misericordiosa: Falam com alguma pena da incapacidade de improviso e iniciativa dos homens com quem estão. Reconhecem-lhes qualidades imediatas, que elogiam como feitos epopeicos, mas são as primeiras gladiadoras de arena quando se trata de apontar defeitos. Provavelmente eu sou igual. Há uma crueldade tão limpa no discurso de uma mulher que é uma pena depurá-lo. O mais engraçado é que o discurso entre duas mulheres na partilha dos vinagres da relação é mais limpo, que a reclamação em relação, apresentada na hora. Isso não se explica apenas pela combustão do momento, o sangue em espuma quente, que faz de qualquer mulher gaga um líder (numa TED talk). Eu desconfio que a irritação feminina produz um tipo de calor que nos cozinha a gramática no cérebro. Sai o cozinheiro da tasca, entre o Michelin da esquina.
De repente a dor metamorfoseia-se nas frases mais rebuscadas, nas metáforas mais bonitas. Inebriamo-nos na vaidade de nós mesmas. Tornamo-nos cúmulo: Apresentadora e ouvinte. Há uma luz que desce, parece que desce, a voz ganha corpo, parece que ganha, os adjectivos sucedem-se, parece que nascem. Queremos gravar cada frase dita, crescemos em altura, fermentamos nas palavras. O silêncio do outro lado confirma que nos isolamos na margem da meta, agora é o sprint. Fechamos os olhos, erguemos o peito, avançamos a perna, o galope, o compasso, há música na nossa voz. E aqui vai disto:
“Não te sinto. Estás. Mas depois ausentas-te”
“Há uma distância fria entre nós”
“Precisamos de mais poesia”
“Queria sentir-me a voar.”
Torna-se indiferente se o outro permanece, porque a sedução do discurso feminino é uma actuação a solo. O homem pressente uma espécie de prazer egoísta, estanca, queda-se. O espasmo há de passar, crê. Mas quando a luz sobe e a última frase é proferida como selo em lacre, a mulher olha, cala e devolve. E tudo o que oferece ao homem em palco é um pedido de desculpas em forma de aplauso.

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