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E TUDO O VENTO LEVOU…

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Bom dia!
Mesmo depois de ter começado a manhã a ser expulsa da biblioteca da escola por estar a falar ao telemóvel com a professora da minha filha.
Passo a explicar…Ontem cheguei a casa às 20h. As loiras não tinham tomado banho e era hora de jantar. Estavam serenas no sofá, como se a casa fosse apenas um prolongamento do recreio com mais almofadas. Respirei antes de entrar em casa, e só não suspiro mais alto, porque preciso daqueles segundos de ventilação pulmonar para me fazer à auto-estrada da vida doméstica, com enfoque muito particular, neste belíssimo capítulo da maternidade e seus desafios.
Avancei com o jantar, tomam banho a seguir, pensei. A loira mais velha faz fita porque a sopa está doce, a mais nova resmunga que está quente. Os cabelos misturam-se com os fios de esparguete, entornam-se goles de água sobre o prato fundo. Siga.
Quando finalmente as consigo deitar, liga-me o pai pesaroso a querer matar saudades. Ainda a meio da digestão de tudo, corro para as mochilas. Mãe que é mãe exige e controla. Enquanto não lhes reconhecer responsabilidade suficiente para não ter que encontrar pedaços de carcaça dentro do estojo, vasculho e vasculharei, sem qualquer afeição ao verbo.
Lá estava o caderno de matemática da Camila. Tinha ido ao Apoio de estudo a seguir às aulas mas não havia um exercício que tivesse certo. Olhei para o exemplo de cálculo, habituada às operações matemáticas na vertical, tive dificuldade em perceber o desdobramento das dezenas, para voltar a somar às centenas e finalizar o cálculo. Pensei googlar mas eram 23h e estava podre. Amanhã é outro dia, pensei. Como a última frase da Scareltt O´Hara em “Tudo o vento levou”.
Só que aqui o vento, deixa quase tudo no meu colo.
Chegamos às 8h ao colégio, encaminhámos a Caetana, e seguimos para a biblioteca para tentar terminar os trabalhos, longe da confusão do recreio. Olhei novamente para os cálculos, para a folha esborratada de esforço entre o lápis e a borracha, e achei mais prudente, ligar à professora a pedir auxílio, só para engrenar com uma certa mestria no cálculo da operação.
Calculei mal, porque me esqueci que estava na biblioteca, e embora ciente de que éramos as únicas almas, não se pode falar ao telemóvel, como é óbvio. Fui repreendida com firmeza pela guardiã dos livros. Pedi desculpa, levantei-me e fui para a porta aprender a fazer contas, deixando a Camila no conforto da pausa. Quando me sentei faltavam 5 minutos para o toque. Apeteceu-me tanto fazer por ela. Senti-a completamente perdida. E eu também. Tão esborratada como aquela folha de papel quadricular.
Estava ciente de que ela ia ter teste dentro de uma hora, e não tinha a mínima noção do que ia fazer.
Apertei-lhe a mão com força, beijei-lhe a testa, ajudei-a arrumar o estojo e saímos. A caminho da sala, ajoelhei-me à sua altura e disse-lhe:
– Camila, hoje o teste não vai correr bem. Mas “amanhã é outro dia” e nós vamos aprender a fazer essas contas.
Quando a deixei na sala, já não sei se acreditava na força da expressão do amanhã. Que é o que acontece quando o Hoje nos embate assim.
E tudo a mãe levou…

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– Às vezes não dou conta do recado.

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Liga-me uma grande amiga, estava cansada, talvez aflita.
Estava às compras no supermercado com os filhos, quando a filha lhe pede para segurar qualquer coisa na mão. Disse-me aflita, talvez mais cansada que aflita, que tinha perdido o que a filha lhe passara dois minutos antes para as mãos. Disse-me ao jeito do desabafo mais sincero:
– Às vezes não dou conta do recado. Foram só dois minutos e eu perdi o que ela me deu.
A miúda ficou chateada, talvez aflita, talvez mais chateada que aflita. A mãe ficou de rastos.
Tenho tantas falhas para a troca que não tive que procurar muito pelo equipamento do ballet que não levei no dia em que havia sarau, nem tive que puxar muito pela imaginação para me lembrar que cheguei atrasada ao colégio no dia a seguir à reunião de pais, em que falaram da pontualidade, nem tive que esgravatar para lhe contar sobre as vezes seguidas em que me esqueci de reforçar o lanche e elas se queixaram de fome, nem as vezes em que servi Estrelitas ao jantar, na vez dos brócolos, porque me esqueci de os cozer. Nem aquela vez que fingi que não havia trabalhos de casa porque não tinha energia para os fazer, nem as vezes que saltei o banho, porque não tinha paciência para lhes lavar os cabelos.
Disse-lhe só: – És uma mãe do caraças. Acredita que se não o fosses, não era a coisa que ela te deu que tinhas perdido. Era a memória do que perdeste.

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