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Terra Abençoada

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Há poucos sítios no mundo onde é tão fácil fotografar como em São Tomé e Príncipe. Dos países que já estive em África este é seguramente aquele em que as pessoas se colam às lentes da máquina. As crianças pedem para ser fotografadas, as mães sorriem com os filhos nos braços e os mais velhos param, como se tivessem a perfeita noção do desfoque.
Por hábito pergunto e mostro em seguida a foto que tirei. Tento ser rápida para que o sorriso não resvale em pose, mas com as crianças perco-me, porque se divertem entre os cliques e a revisão das fotos.
Esta é uma pequena amostra de alguns dos rostos simpáticos com que nos temos cruzado. Não sei a história de todos as caras, mas não houve um só clique que não fosse pontuado com um enorme sorriso.
E uma terra que sorri é uma terra abençoada <3

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Não sou filha de um microondas mas quase.

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Não tive a sorte de crescer na sanidade simples de uma aldeia.
Menos, tive a sorte, de ter parentes próximos que me recolhessem todos os anos para me devolverem, ainda que por breves instantes, à singularidade da vida de uma pequena comunidade rural.
Nem fui bafejada com a tradição do saber antigo, da lavoura, do ferro, do pastoreio ou dos artesãos. Não sou filha de um microondas mas quase.
Nasci na cidade, mas vivi numa casa grande com jardim, onde aprendi as artes de ser criança. Não tive a chaleira em brasa sobre o carvão quente, nem dormi sobre as ameias, nem aprendi os nomes dos peixes no barco, nem os nomes das plantas comestíveis, como algumas avós das minhas amigas, que partiam nas férias para a “terra”.
Quando vim pela primeira vez a São Tomé, e parei num destes rios escavados na floresta pejados de pessoas, de roupa e de espuma branca fiquei encantada. Centenas de mulheres e crianças lavam diariamente as roupas coçadas nas pedras do rio. Os mais pequenos distraem-se nus brincando entre as pedras. Os homens não participam deste ritual (acho que em geral os homens do mundo nunca foram grandes fãs na arte de lavar a roupa) e as mulheres vão conversando entre elas, de costas tombadas sobre à água fresca do rio.
Se seguirmos o curso da água, vamos desaguar na praia, mas não sem antes, percorrer uma auto-estrada imensa de roupa estendida. Como se aqueles pedaços de roupa estivessem ali dispostos, só para abraçar a natureza.
Respeito as mulheres e as crianças que trabalham e vou trocando palavras e sorrisos. Sei o que lhes custa no corpo, e devolvo-lhes a minha pasmada admiração pela forma serena com que se entregam ao inevitável com um sorriso.
Não gosto de fazer máquinas de roupa, ainda menos de a estender e tão pouco me apraz engomar. Mas nesta selva imensa de floresta humana e manual centrifugação, descubro de novo as saudades da “terra” onde não vivi.

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“Quando voltares da África do Sul…”

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Nunca tive feitio para grandes dramas, por isso digo-te a brincar que “Quando voltares da África do Sul, vou ter noventa e cinco anos.” Que me vais ter que ressarcir por cada sulco profundo e por cada gordura acumulada indevidamente.
E isso, só para falar de raspão dos danos visíveis de ser mãe monocasta. Depois, há todas as mazelas que não se vêem a olho nu: Os transtornos do sono e a culpa que morre só.
Sei que estás a fazer pela vida e por isso não gosto de te incomodar com a ladainha dos dias. Às vezes poupo-te, substituindo as coisas menos boas pelas histórias da Saudade.
Na verdade, as coisas menos boas não são necessariamente más, mas são verdadeiramente complicadas.
Sei que se pudesses estavas cá e se calhar, não imaginas, a quantidade de vezes que as punha aí(se pudesse).
Os dias não nascem todos com sol. E às vezes a minha energia não chega para ser painel solar das emoções de toda a família.
E quando as coisas complicam e chovem reclamações, também já vi que não tenho comprimento de braços para ser guarda-chuva. O amor que lhes tenho é um depósito, mas às vezes dou por mim a lamber a reserva.
Se calhar não imaginas as vezes que estanco a derrocada de lágrimas, por cada negativa de um teste, por cada falta de material e por cada telefonema da Professora. Tento que nada lhes falte, mas não consigo suprir com beijos as fendas das saudades que elas têm de ti.
E não consigo escavar no tempo, um abrigo que chegue, para as saudades que tenho da minha vida quando estavas cá. Essas, apago-as num copo de vinho, quando a noite condescende no meu turno de mãe.
Por isso digo-te novamente a brincar “hoje já tenho oitenta e seis”.

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Uma semana com o Pai, uma semana com a mãe.

11111160_1158834114142224_1778280671482826367_oHá três anos que vivia feliz da vida, na lógica da semana sim, semana não. Uma semana com o Pai, uma semana com a mãe. Quando o Pai das loiras vai viver para África do Sul, a minha vida muda radicalmente, e passo subitamente, da custódia partilhada para a total. Confortável na gestão espaçada do meu tempo, com uma quinzena mensal para a desresponsabilização sobre as rotinas, as compras, as aulas, os Tpc´s, as dores, as queixas, as festas e todos os afins sem fins que fazem parte do pacote da maternidade, “flipei”. Era o fim da minha bolha de oxigénio, uma contracção forçada sobre o meu tempo, um golpe à minha liberdade.

E a quente, sem qualquer mácula sobre o amor que lhes tenho, pareceu-me um dos maiores entalanços que a vida me ofereceu.
Resisti mas não havia nada a fazer.
Dizia a brincar ao pai: – Não me faças isso que corro o risco de me afeiçoar:)
Hoje quando as vejo agarradas como lapas ao pescoço do pai, quando o vejo inquieto tentando sorver-lhes a presença, o afecto, as histórias. Fixando-as com carinho para memorizar os traços, os sons, as vozes e o feitio. Penso que não saberia estar do lado de lá da saudade, longe das minhas duas fontes de vida. E ainda que haja dias, que tudo o que deseje é o regresso terno ao passado partilhado, sei que sou uma filha da mãe com uma sorte do caraças.

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