Sentimental bipolar

xxxx-2Às vezes dou por mim a pensar como seria não ter sido mãe, aliás quando estou sem elas, embrenhada num mojito de final de tarde, a amnésia maternal é quase automática e antes do álcool bater, já lhes bateu a orfandade. E este talvez seja o precipício mais alto das mães, não o álcool, mas o chamado síndrome sentimental bipolar. Quando estou com elas passo-me, suspiro, canso-me e acelero as tarefas até que o lar fique a repousar na quietude e no sono delas. Mas depois e, como sou uma sensível do caraças, vou lá ao quarto e fico a babar-lhes o o sono, com a memória comprimida dos minutos anteriores, quando estava prestes a lamentar o esquecimento da pílula. Depois deito-me e quando acordo atrasada, volto a lamentar o dia em que dei de comer ao instinto de maternidade. Os espelhos são muita cruéis de manhã e ao lado da pele rosada dos seus sonos bem dormidos, estão as minhas olheiras e toda a orgânica do dia. Mas depois, a meio de uma reunião qualquer bate de novo uma saudade, uma vontade inexplicável de as ir raptar à escola, seguido das vezes em que regresso do trabalho a casa, estaciono à porta e fico a ler artigos de revistas velhas só para adiar a entrada na rotina.
E é nestes momentos que acho que sei exactamente o que é um ser humano, em versão mãe e também sei que hoje é sexta e não há mojito para ninguém:).

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