Senti-me em casa

IMG_0629_2813 Quando cheguei à aldeia do Macaco em São Tomé e Príncipe, uma pequena roça abandonada sem electricidade, escondida na densa floresta São Tomense, o único rastro de luz que existia vinha da minha pick up. O nosso jantar foi precedido de uma caça às galinhas com pedras nas mãos, as crianças rodeavam-me as pernas e as mulheres riam em surdina chamando-me “branca”. À volta da fogueira improvisada estavam 4 mulheres agachadas a cozer fruta pão. E os mais pequeninos transportavam nas mãos as goiabas que iriam servir de sobremesa. As luzinhas amarelas das casas que rodeavam a cozinha comunitária começaram a mover-se nas mãos dos habitantes que se aproximavam do nosso pequeno aglomerado de gente. A temperatura era perfeita, descalcei-me e as pedras macilentas e redondas estavam quentes. Bebi vinho da cana misturado com cerveja em cascas vazias de maracujá e o primeiro brinde foi à felicidade. Senti-me a respirar fundo como fazemos quando sabemos que estamos a inalar vida. Queria congelar o momento, as gargalhadas tímidas das crianças, as vozes do Mike, do Beth, do Junior, do Cuassa e do Ben, as feições despreocupadas das mulheres que assistiam a tudo com os filhos nas costas, os cães vadios e um céu cheio de estrelas estrangulado nas copas das palmeiras. Não me sentia turista, nem viajante, senti-me em casa. Desfiz o frango com as mãos directamente do tacho, bebi o vinho e limpei a boca com o antebraço quando a luz já não deixava adivinhar por onde escorriam as gotas. Os bebés tinham medo de mim mas até o choro adiado era o prenúncio da confiança que se sentia. Apeteceu-me ficar ali, pedir aos Deuses que se demorassem a preparar o dia e o meu regresso. Voltei a respirar fundo e quando já não sabia se era a felicidade do momento, se o álcool da cana, se a dormência da entrega, levantei-me e dancei. Virei a anedota mais feliz daquela aldeia e enquanto as suas vozes rodopiavam o meu corpo, as mulheres levantaram-se e juntaram o seu bambolear ao da branca. E o dia demorou a chegar…

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