Raça de confiança

IMG_0339_5007_1 Dos meus cinco irmãos, eu sempre fui a mais Brigitte Bardot, não no sentido louro sensual e formas curvilíneas, mas na paixão arrebatadora por animais.
Numa crise de pré adolescência, aguda e demorada, virei misantropa, achava maior conforto nos animais, que nas pessoas que me rodeavam e por isso monopolizei a garagem do meu avô com o propósito da criação. Comecei com um casal de periquitos, recolhi um gato da rua, ainda estou na dúvida se não terei raptado (mas ele foi feliz), comprei quatro coelhos anões, dois machos e duas fêmeas, para garantir a procriação e um casal de hamsters. Estava tão focada na causa, que quando percebi que um rato grávido era mais barato, comprei de enfiada duas fêmeas prenhas. Assim que chegava da escola corria para a garagem e até ouvir os gritos agudos e impacientes da minha mãe a chamar para o jantar, ficava de cócoras no meu mundinho National Geographic de porta trancada. Depois, abria as gaiolas de par em par, e estranhava que os animais não corressem para o meu regaço, com a mesma naturalidade com que corriam para a Branca de Neve, singela e perdida, na orla da floresta. Pouco a pouco, a confiança que tardava nas pessoas era compensada pela proximidade dos animais, que começaram a achar, que eu pertencia a uma raça de confiança, nem que fosse pela constância, com que os inclua na rotina banal dos meus dias de criança. Quando fui arrebatada pelo tsunami da adolescência, dei-me subitamente conta da importância de voltar a sociabilizar com os seres humanos e a garagem foi perdendo aos poucos o epíteto de lar. Os animais voltaram para o plano da estimação, e eu voltei-me para estimar o que de humano existia à minha volta. Não virei bruxa má, nem tranquei a garagem por fora.
E quando a perversa adolescência me varria em cruéis acções, era lá que eu recolhia, no cantinho da garagem do meu avô, onde a minha presença era sempre desejada e nada me era exigido.
Hoje, tenho um apartamento sem garagem e o único animal que tenho, é uma tartaruga, que é tão lenta, que eu chego a achar que estou a tirar camarões para uma estátua.
As loiras não lhe ligam puto e o que nós queríamos mesmo, era ter golfinhos e cavalos, e depois de menor porte, cães e gatos e talvez um hamster fermentado e mais divertido. Sonho muitas vezes com o dia em que elas chegam a casa e eu estou, novamente de cócoras, como se tivesse na garagem do meu avô, com um cão bebé, no meu regaço de Branca de neve amarela.
No entretanto, e enquanto o sonho tarda, estou certa que elas têm de humano, tudo o que basta, para perceber, que no meu colo vazio ainda há imensos sonhos por preencher.

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