Quem é Isabel Saldanha?

IMG_1725_5418 E foi assim que respondi ao desafio da Ana Marques da Lisbon affairs. Sem medos ou preconceitos, com aquela doce consciência de quem sabe que a vida nos transforma todos os dias.

Quem é Isabel Saldanha?
É engraçado que toda a gente se inibe em falar sobre si mesmo, como se o pressuposto do auto-elogio das nossas qualidades fosse uma arrogância e não apenas o que devia ser, um fenómeno fabuloso de auto-conhecimento. A Isabel é uma tipa muita feliz, um espírito sagaz e curioso, que se deita todos os dias amuada por ter que fazer uma pausa de sono em tudo o que é vida. A Isabel é uma gaja que me cansa, porque quer fazer mil coisas ao mesmo tempo, excedendo mesmo os limites impostos à condição feminina. A Isabel é uma boémia, hedonista, que troca a monotonia do sofá por uma seca colectiva bastando, para isso, que seja outdoor e tenha bom vinho. A Isabel é uma romântica, perfecionista. A Isabel é uma bem disposta que vive para dizer “Bom dia” em voz alta. A Isabel é desapegada e impulsiva. A Isabel tem defeitos como toda a gente, mas como é optimista não se inibe em dar palco às suas qualidades. A Isabel vive dentro de mim e é um prazer dar-lhe abrigo mesmo que, para isso, me compita a missão de arrastar o seu esqueleto cansado até ao próximo desafio.

O que queria ser quando fosse grande?
Queria ser eu. Mas não sabia que isso dava uma profissão de jeito.

Sente-se concretizada a nível profissional?
Completamente. Sinto que tenho o privilégio de ter conseguido pôr todas as minhas qualidades a render…. E alguns defeitos.

Como é que a maternidade a influenciou?
A maternidade influência tudo! É uma espécie de bomba atómica mas com a diferença que arrasa até as baratas. Nunca fui grande mãe por vocação, acho de longe, o maior desafio que pode ser colocado a um ser humano. Nunca conheci nenhuma condição que nos fizesse compreender de uma forma tão nítida a dimensão do tempo, a urgência de permanecer vivo, a auto-suficiência de um abraço, a importância de um cheiro, a fugacidade do tempo e a responsabilidade de se ser uma referência, a eterna ilusão do Norte para os nossos filhos. Digo muitas vezes às loirinhas: “Eu já cá estava primeiro!”. Não sei se elas percebem exactamente o que eu quero dizer, mas talvez que permanecendo na memória, condescendam com alguns dos meus erros.
A verdade é que as amo de morte, mesmo quando tenho vontade de morrer junto.

E Lisboa, o que é a cidade para si? Cresceu com ela?
Neste momento é o caos interrompido da Rua do Ouro, os instagrams do Arco da Rua Augusta e a minha querida Alfama. Infelizmente não cresci em Lisboa por culpa dos meus avós, que decidiram que íamos viver em Paço de Arcos numa casa aburguesada, numa rua sem saída, sem paragens de autocarro ou qualquer possibilidade de escape. Escrevi uma vez no meu diário dos 12 anos que vivia numa rua sem autocarros, como quem pede ao mundo um bocadinho mais de centralidade… Assim que pude, pirei-me!

Sendo fotógrafa, ouso questionar: qual a luz de Lisboa?
Isto é cliché. Mas a luz de Lisboa é como o cozido à portuguesa, como-o em qualquer altura do ano.

Tem alguns recantos favoritos na capital? Quais?
O meu preferido é Alfama. Sinto-me literalmente em casa.

O que gosta mais de fotografar na cidade?
As pessoas da cidade. Lisboa é linda de morrer mas se fosse apenas um museu arrogante com baias de segurança e placas na relva, com “Proibido pisar”, não era aqui que queria morar.

E se Lisboa fosse um retrato, como o definiria?
Lisboa é uma miúda endiabrada, de cabelo despenteado, que roça os sapatos engraxados no chão enquanto é arrastada pela mãe à entrada de uma missa. Lisboa tem um vestido redondo de flores, com padrão fininho, onde as nódoas se confundem com um jardim. Lisboa é uma menina de mãos irrequietas e dedos pegajosos. Lisboa quer saltar ao elástico entre os meninos da sua idade, adiando até puder o seu estatuto de princesinha. Lisboa gosta de pirolitos, golos de ginjinha à escondida e balões grandes de pastilha gorila. Lisboa é uma menina que se quer perder sem se encontrar, na esperança de se manter criança no conforto das suas 7 colinas.

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