Prefiro o risco inerente

IMG_2754_5092 Há dias, quando ainda havia sol como deve ser, fui passear com uma amiga e a filharada para a praia. Como acontece com frequência, e graças a Deus, as mães despojam-se nas esplanadas enquanto as crianças fazem da imensidão da praia o seu recreio. A Caetana que é solta como uma rajada de vento fez casa numa pequena duna que ficava fora do nosso ângulo de visão e sumiu. Fui checkar o local e garantir que não estavam a fazer pactos de sangue com latas enferrujadas e voltei à caipirinha. Nisto vem a amiga da Caetana que diz aflita que não queria ir para lá brincar porque não vê a mãe e pode aparecer o Homem Mau. Olhei para a mãe dela com um ar de interrogação e ela diz-me:
– Para elas não se afastarem normalmente utilizo a figura de um homem mau que as pode levar de repente. É uma boa estratégia a sério!
Hesitei. Hesitei “bué” mesmo…. Mas não me sinto no direito de ensinar aquilo que ainda estou a aprender, a educar. Sei que as minhas filhas não são as crianças mais amaciadas do mundo, sei que desobedecem muitas vezes, que provocam e que se escondem, sei que às vezes a ansiedade da fracção de segundos entre o pânico de as ter perdido e a tranquilidade de quem as vê novamente, me tiram anos, cansam-me e envelhecem-me. Sei que são dadas, “vendidas” e extrovertidas e que se movem sem a timidez dos acanhados. Mas prefiro o risco inerente a tudo isso a educar no medo. Há homens maus sim, mas mesmo sem a inocência absoluta das teorias de Rousseau existe muita gente boa e não quero que as minhas filhas cresçam a pensar que qualquer homem é um risco, que um estranho é uma ameaça e quero acreditar que o calor do meu carinho se estende aos sítios onde não as vejo. Pode ser mais fácil que temam mas quero acima de tudo que amem, que acreditem nas pessoas e que seja nessa aguçar de sensibilidade que percebam por si próprias as faces do mal e as inúmeras manifestações do amor.
A questão do bem e do mal é central na educação e a forma como definimos estes conceitos aos olhos deles, definirá a postura perante a vida e os outros. Quero que as minhas filhas confiem por princípio e que as desilusões sirvam para aumentar o pragmatismo com que analisam as pessoas e as situações.
O mundo não é um sítio mau e até para me ver livre delas um dia, preciso que se se sintam em casa em todos os cantos do mundo:)

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