O lopping diário de existir

penasssDizem que há muitos anos atrás eu até gostava de dormir. Sinceramente? Não me lembro. Durmo sempre muito pouco, ainda que haja na minha adolescência, saldo de sono ressacado, suficiente, para cobrir toda a minha velhice. Quando me deito, amuada por ter que fechar temporariamente os olhos à vida, levo o iphone, para o scroll no instagram, o meu caderno dos pensamentos vagos e das ideias milionárias e um livro, que volto a transportar de manhã até à mesa do café, a maioria das vezes, com o marcador congelado no mesmo capítulo. Depois, desculpo e “argumento-me”, que não se podem pôr todas as histórias a rolar ao mesmo tempo. Dou prioridade à minha, a esta vida, que aqui está, por tempo indeterminado, por aleatória vontade para se fazer destino. Quando era pequenina e me falaram no fuso horário, tornou-se ainda mais difícil dormir ao pensar em todo um hemisfério acordado. É tramado, porque com o tempo, aprendemos a espicaçar o pensamento e, dominamos-lhe a noite, fermentado-o de tal forma com ideias, que a insónia vira uma menina bocejante ao lado do choro de recém-nascido. Também bebo copinhos de tinto enquanto trabalho à noite, mas são tão inspiracionais, que chego a ir buscar a garrafa. Às vezes penso nas rugas, mas depois intelectualizo e rendo-me à ideia de que prefiro uma cara amachucada a um pensamento liso. Ponho jazz, soul um R&B suavezinho, mas o sono não pega como aquelas crianças de cabelo farto rejeitadas por piolhos.
O sono não me curte.
Gosto mesmo da cama para os amassos.
Mas sei bem, o bom que é, quando a noite nos pega de mansinho como um embalo, quando adormecemos como se nos penteassem o cabelo e como me delicio na entrega. Mas o mais vibrante para mim, será sempre, quando se faz dia outra vez. Quando me ponho logo de pé, como se o sol nas frestas, fosse uma rusga na favela. Isso é que me sacode ao corpo, o lopping diário de existir, como se na grande sala de jogos esquecida, houvesse uma mão generosa que coloca a moeda e nos dá mais uma vida.

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