Lembro-me da minha despedida de solteira

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Lembro-me da minha despedida de solteira, sombra tímida do que se pratica agora, não há registo, só há memória. Lembro-me de estar feliz, meio ansiosa, meio crescida, ainda muito miúda. Lembro-me do jantar com as amigas, muitas delas, nem sei bem por onde andam, outras por perto. Lembro-me das conversas tontas acerca do sexo, dos hábitos e das práticas, quando tudo o que eu pensava, era no bom que ia ser cozinhar para dois.
Lembro-me de achar que sabia tudo, sem saber quase nada. Tudo o que eu queria, era gozar a lua de mel na América Latina e pagar contas de electricidade. Lembro-me de haver amigas que sabiam muito mais do que eu. E lembro-me de achar, que sabia mais, que qualquer uma delas. Lembro-me de estar concentrada, não me lembro de estar a olhar para um telemóvel, lembro-me de estar mesmo ali. Ia casar. Não fazia uma pálida ideia do que era uma rotina. Para mim, era tudo novidade. Lembro-me de não ter medo das coisas que me diziam, acenava a cabeça de olhos abertos, mas não ouvia nada. Lembro-me de achar que os conselhos eram ressabiamentos de histórias mal vividas. Era invencível. Ia casar. Hoje já sou mais crescida, mas não olho para as noivas com aquele olhar de velha beata, a desdenhar os namoros fogosos nos bancos de jardim. Não olho desiludida para o caminho percorrido, nem acho iludidos os que o percorrem. Bem haja a ingenuidade, porque quem sabe tudo não vive, e quem acha que sabe tudo, pouco saboreia. Se voltasse atrás, abandonava a bagagem, vivia tudo com a mesma altiva ingenuidade com que saboreie as minhas primeiras bebedeiras. Já descasei, quem sabe um dia volto a casar, e ai, de quem se ria do ar feliz com que vou percorrer as ruas da cidade com um fotógrafo atrás, e um bando de amigas felizes, ligeiramente ébrias, menos ingénuas, mas crentes de vou ser, ainda e sempre, mais feliz.

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