Quem semeia tempestades

IMG_0029_9038Hoje saí a correr para ir atrás de uma tempestade.
Depois da calma da planície alentejana, do tinto, da lareira, dos livros, das estradas vazias, da sueca nos cafés à beira estrada, do cheiro a terra molhada, dos sobreiros imponentes a fazer se à fotografia, regressei à costa brava e fui sentir de perto o mau humor do Inverno. Agora, tenho o coração divido, entre o latejar sereno dos montes e as ondas irritadas a grafitarem nos molhes. Não estava frio, o vento à beira mar tinha o hálito morno e a espuma branca do mar ia comendo a praia, como se as nuvens tivessem decidido subitamente vir dormir à terra. Debaixo dos nossos pés, as pedras coreografadas, rolavam com força, empurradas na desordem das ondas, o céu competia com o oceano numa luta de cinzentos, e num impulso quase suicida, as pessoas iam se aproximando das bermas, chegando-se aos promontórios, como se quisessem fazer parte pequena dessa grandeza infinita, inquestionável, solta e impossível de domar, que põe a rolar na areia fina a maior ambição humana de poder.
Talvez seja para isso que há tempestades, para que a bonança nos inunde de humildade, e para que na próxima maré vazia, desponte no coração dos homens, os vestígios mais limpos do seu ser.

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