Histórias para ler antes de dormir

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A Caetana pediu-me que lhe contasse pequenas histórias para ler antes de dormir, e eu escrevi-as. Assim, enquanto preparo o meu livro, vou curtindo outras incursões. E partilho com vocês, o rascunho original destes meus ensaios.
O narrador é a Mia, uma menina de oito anos.

“Não lhe saía da cabeça a fita, que o irmão Luís fizera há dias atrás, quando o primeiro dente de leite, lhe caiu perdido no chão da cozinha.
O dente estava quieto, sossegado, no canto de um dos quadrados brancos do mármore xadrez. Tinha vencido as mãos agitadas do irmão, o passo apressado da mãe, a indiferença do pai e o salto brusco da cadeira da Mia.
Tudo o que o Dente pedia, era que o recolhessem e dessem andamento ao protocolo. Que o colocassem sobre o colchão, que o comprimissem sobre a almofada, e que o deixassem dormir, aqueles minutos que separam o sono profundo, da mão da fada dos dentes, da permuta pela nota e do caixote do lixo.
A Mia pôs de pé, a olhar para o dente pálido na mão aberta da mãe. O dente era enorme, olhou novamente para o irmão Luís, e pensou, como era pequeno para aquele dente.
A verdade, é que também era pequeno para aquelas lágrimas, e magrinho para aquele choro todo. E nem por isso, deixava de chorar e de gritar. Pensou que era bom, que fosse verdade, que o tamanho das coisas que temos, não revelasse a proporção do que somos.
Se assim fosse, ia ter sempre pena do pai que tinha uma cabeça pequenina.
Quando voltou a olhar para a cara aflita do irmão, já a mãe dominava a cena.“As mães salvam tudo não é?” Pensou Mia.
Gritam que se fartam, abanam demasiado o corpo, gesticulam com as mãos, como se fossem tesouras em Origami, mas no final, aparecem e salvam tudo.
Ajoelham-se à nossa altura, colocam a voz naquele tom de mãe e falam.
A Mia tinha ideia, que quando a mãe se ajoelhava e falava pausadamente, ela ainda não sabia verdadeiramente, a solução para o problema. E que era por isso, que falava baixinho e muito devagar, para que as palavras chegassem e dessem tempo à composição das ideias, que ainda não tinha.
E a verdade, é que quando o corpo da mãe se erguia, levando o nosso junto pela mão, ela já parecia saber tudo.
Nessas alturas, a Mia ficava a olhar a mãe até à última curva da sombra.
Ficava tão orgulhosa dessa capacidade de resolver tudo, que chegava a pensar criar um problema pequeno, só para a ver fazer tudo aquilo outra vez.”

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