Gosto de ti para caraças Alfama

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Não escrevo isto com pesar, porque o que me pesa mais na vida é ficar igual.
Escrevo isto com saudade, porque é uma palavra que vive em permanência no meu bairro, e porque não temo o que ela representa, nem lhe acho mais destino, que o fado, apenas fado.
Daqui a um mês vou sair de Alfama.
Tenho a certeza que vou morrer de saudades, também sei que as mato num qualquer impulso de regresso e sobrevivo, com saudades apaziguadas, mas sobrevivo.
Não mudo de Pais, mas mudo de morada.
Não mudo de cidade, mas mudo de bairro.
Não sou saudosista por natureza, mas se houve um aquário onde me senti peixe foi aqui.
Nunca tinha vivido num sítio onde o caminhar entre as ruas soubesse tanto a Abraço.
Nunca, sair à rua me soube tão a oxigênio, nunca em sitio nenhum, tive conversas demoradas com a janela, para a janela, sobre o rio, com o rio e com as pessoas. Nunca os rostos me pareceram tão familiares e os sorrisos, tão entregues.
Nunca comi carcaças tão boas como as da Dona Manuela, da Padaria.
Nunca quis tanto pertencer a um sítio.
E como quero demorar-me na despedida, decidi sair à rua, e tirar uma fotografia com todas as pessoas que marcaram a minha vida em Alfama, desde os vizinhos do lado, ao Sr. Zé da leitaria, ao Manuel barbeiro, ao Orlando, o arrumador, e tantos outros e outras, que marcaram o meu compasso, a minha história e a história das minhas loiras.
Um por um, dar-vos ei a conhecer, do que sei, o que foram para mim. Sem qualquer pretensão de fado, e com a saudade a segurar-me a tinta da caneta, é sobre ti que quero escrever.
Gosto de ti para caraças Alfama.
E este foi o nosso fado

* Amanhã apresento-vos o Sr. Zé da Leitaria do Largo São João da Praça.

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