Ginjinha sem rival

GINJINHALá fomos à Ginjinha sem rival, certificar-nos, que a ginja que ainda bóia no pequeno copo nada tem de russo, lá tive que explicar às loiras que o prédio tinha sido vendido e que queriam fechar a loja, lá tive que contar, que lojas como esta, fazem parte do nosso património cultural e que fechar um estabelecimento como este é como exagerar na edição de um rosto, tirar tudo o que caracteriza, as suas marcas de vivência e torna-lo uma porcelana falsa, lá tive que explicar que existem umas quantas casas míticas em Lisboa, como esta, que vendem ginjinha a copo, e que o costume faz parte da cidade onde vivemos, lá apontei para as montras, para os rótulos dourados e curvos sobre a fachada, para que elas percebessem o que era, e o que eram desenhos de época, lá contei que a casa abriu em 1890, que tem 123 anos e que querem fecha-la para converter todo o prédio num hotel, lá contei que nem tudo “cai como ginjas” para ficarem com mais uma expressão e lá ouvi a Caetana responder:
– Ó mãe, mas quem quer fechar não bebe?
Lá expliquei que tinha mais que ver com a ganância do dinheiro, do que com o gosto centenário da ginja.
Lá respondeu: – Mas há tantos hotéis em Lisboa! Porque é que não fazem disto a entrada do prédio?
Lá encolhi os ombros, pedi mais uma ginja e não precisei muito para confirmar que a visão sóbria de uma criança é mais profícua que a ganância inebriada dos homens de poder.
Curiosamente o encerramento da “Ginjinha sem rival” está previsto para o dia 1 de Junho, dia da criança.
Pode ser que a cidade tenha sorte, e que o homem que tem este dossier na mão, tenha na mesa de cabeceira, um exemplar bem lambido do “Principezinho”.

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