Família ADAMS

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Sou uma mãe porreira. Disso, tenho a certeza.
Levo ao expoente máximo a arte de ser criança. Em minha casa permite-se o eco agudo das expressões mais dramáticas.
Com a minha mãe não era assim, cinco filhos em casa, individualidades homogeneizadas e pais tranquilos.
Arrebiques de carácter e nuances de extroversão eram passados a ferro de educação. Havia fases para todos mas o colectivo não podia ser ameaçado com o despontar de uma rebeldia singular.
Quis contrariar o modelo e não faço ideia do ónus do resultado. Se querem maquilhar-se partilho as minhas tintas, se querem desfilar, empresto as minhas roupas, se pedem para cozinhar, vamos para a cozinha. Da sala faz se palco de teatro, do corredor passadeira, da cama trampolim. A verdade é que ser mãe assim me dá uma sensação apaziguadora de vingança tardia sobre o reinado dos meus pais. E também é assim que me via a ser mãe.
Preservo o meu espaço mental quando o sono lhes dá carinho, mas até lá é tudo nosso, quando elas estão, para usufruto colectivo.
Aqui há dois anos a Caetana decidiu que queria ser gótica, tinha apenas 8 anos e a única peça do armário preta era o maillot de ballet. Condescendi, lembrada que o acto de contrariedade degenera normalmente numa obsessão pelo tema. Tive sorte, o maillot não dá jeito para ir à casa de banho e em duas semanas cansou-se do exotismo. Agora tem 10 e decidiu que queria ser gótica novamente. Já tem umas quantas peças negras no armário e sabe que o meu está cheio delas.
Adoptei a mesma estratégia…mas ao gosto pela vestimenta preta, soma-se agora uma paixão por literatura das trevas e uma obsessão por temas como o holocausto e os terramotos. Não sei se não preferia quando tinha que levar com a histeria da Violeta em todas as interfaces de som. Confesso que acho mais assustador vê-la a googlar (vigiada) o retrato do Hitler e o museu da Anne Frank. Até na mochila da escola encontrei um livro de poemas do Edgar Alan Poe em inglês resgatado à minha estante.
A Camila que atesta a sua individualidade permanentemente, já começou a ter sonhos com refugiados e hoje pediu-me para ir de cinza escuro para a escola (pantone a pantone vai ficando gótica).
…e quando até a poesia assusta, fico na dúvida, se a contrariedade não devia ter tido lugar ou se também me vista de preto:)*

P.S.: *Também tive a minha fase gótica. E permaneceu a poesia

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