És o bebé da casa

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Estamos feitos com a loira mais pequena! As birras sucedem-se, o choro arrastado, as pernas que embatem nervosas no chão, a cara trancada, o amuo prolongado, o início do guincho agudo, as mãos cerradas, as bochechas ruborizadas de raiva, acompanhadas de toda uma panóplia de vocabulário que faz lembrar uma daquelas bisnagas furadas que guincham indiscriminadamente: – Não vou! – Não fui eu! – Arghhhh – Humpfff!!, – Não quero!
O coro e o coiro são de tal forma crescentes, que há uns dias atrás, a Caetana desesperada, tapou os ouvidos à birra e ameaçava arremessar com uma, caso a irmã não se calasse. Às vezes falta-me a paciência, oscilo entre a procura do diálogo profundo, superficial, ligeiro, infantil, explicado, pedagógico, sustentado e uma tremenda vontade de te esbofetear. As birras não são longas, mas repetem-se com intervalos curtos, numa espécie de tortura, que nem o maior amor de mãe consegue suportar. Tento lembrar-me se há alguma crise protocolar aos 5 anos, que explique o avassalador humor com que somos brindadas todas as manhãs e que nos embala de impaciência às noites. Tenho por teoria que estás mimada, que o teu feitio exacerbado, não tem outra força ou expressão de carácter que não seja o excesso de mimo. És o bebé da casa, vais fazer 6 anos e ainda te pego ao colo como se tivesses dois, ainda me baixo ao nível dos teus olhos com a bolacha maria na mão, ainda te conto histórias, a trocar palavras difíceis pelos adjectivos que percebes, ainda te corto a carne mais tenra, como se os teus dedos fossem pequenos para manusear uma faca, e como se já não tivesses na boca, todos os dentes que precisas para mastigar uma vaca. Nas subidas, levo-te ao colo, nas descidas às cavalitas, antes que te canses já te dei de beber, vou à casa de banho para te limpar o rabo, lavar as mãos e ajudo-te 90% das vezes com os dentes. Quando te tiro do banho, enrolo-te na toalha e deito-te na cama, exactamente como fazia, quando tinhas 6 meses e ainda não sabias que existia gel de banho em bisnaga. Ato-te os sapatos, prendo-te os botões e agarro-te as mãos papudas, para ter a certeza que continuas redonda como um bebé. A verdade é que as tuas birras não podiam estar mais alinhadas com o meu comportamento. Se vacilares, se anuíres e compreenderes, vais crescer. Como o sabes de cor, porque já cresceste, demoraste nas birras, elevas, massacras e insistes. Um pequeno reminder de que ainda és pequena. Sabes que as birras são desnecessárias à nossa convivência, mas essenciais à credibilidade da idade psicológica que te atribuímos. E agora pensas tu. Vou entrar para a primeira classe, a Creche está há menos de um mês para ficar para trás, e o teu salvo conduto de menina pequena, que ainda não sabe o que faz, desvanece-se à velocidade de um pôr de sol. É a vida pequenina. Não vamos tolerar birras da nossa loirinha até aos 25! O que é que podemos garantir? Que te adoramos de morte seu estupor, que te vamos amparar as crises legítimas e fundamentadas, que te vamos dar colo mesmo quando não precisas, que te ajudamos a crescer devagarinho, para não te assustares com as responsabilidades de ser crescida, e aquilo que estás “cheia de caracóis” de saber, que no fundo, no baixo, nos lados e no alto dos “cms” que tiveres, serás sempre a nossa pequenina.

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