E se pudesse voltar atrás?

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Há temas que eu não baloiço, nem engonho.
Quando me perguntam como é que comuniquei às crianças a minha separação, falo com tudo o que sinto. Foi duro, muito duro.
Nunca tive nenhuma conversa com um adulto que me custasse tanto, como aquela troca simples de palavras que tive com as minhas loiras nesse dia. À loirinha mais pequena, expliquei no jeito doce de uma metáfora, esperando condensar a história com o avançar da idade.
Não adianta complicar onde elas só simplificam.
A vantagem mais pura de ser criança é o aproveitamento legítimo do seu palco para actuar, depurando a complexidade do discurso, numa troca de verdades que tem tanto de cru, como de belo.
Mesmo contendo as lágrimas, à medida que a sua expressão ia acusando a dor da ideia, falei sem tremer a voz, sem lhe agarrar os braços, sem me coser a ela, como quem promete ficar no aperto do Adeus. Não queria assusta-la, não queria esconder dor com peneira, nem desembaraço com nervosismo. E falei. Falei simples.
Dei-lhe o espaço necessário à digestão, permaneci, esperei, e falei novamente. Já nem me lembro do que disse. Sei que pontuei o que falamos com um abraço, sei que lhe sequei as lágrimas e guardei o que me restava de bateria, para as pequenas réplicas dos dias seguintes. O instinto maternal é soberano, e diz-nos como devemos falar com os nossos filhos. Quando me coloquei à altura dela, era apenas a mãe ajoelhada a tentar amenizar a dor da minha cria.
O mais difícil para mim, está na aprendizagem de tudo o que vem a seguir. A perda do núcleo, o ganho de tempo, a concentração na tarefa, os medos, os dinheiros, as mudanças, o aperto e a súbita liberdade. Perdi muito naquele dia, mas também ganhei coisas que nem sonhava.
E se pudesse voltar atrás? Não sei…talvez fizesse tudo outra vez.

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