Comer e beber

crastroSempre gostei muito de comer e de beber.
Das coisas que mais me lembro da minha infância são as receitas da minha mãe, da minúcia talentosa que a definia na cozinha, da sua respiração compassada e do passo acelerado, com que ia e vinha da cozinha carregando pratos cheios e travessas coloridas, a forma como dispunha na mesa os pratinhos individuais de manteiga de alho caseira e o “poc” abafado da rolha a soltar o vinho. Passávamos horas à mesa, diziam os mais velhos que “ali não se envelhecia”. Aprendi a degustar de pequenina, sabendo de antemão, que de acelerar nada valia, porque era um pressuposto de boa educação que esperássemos uns pelos outros. Naquele palco estendido, eu desacelarava, descomprometia-me com a vida e a aprendia que o sabor das coisas, se apura, na entrega descomprometida do tempo que lhe damos.
Há pessoas que só aprendem mais tarde, quando a maturidade nos bate à porta e nos ensina de forma brusca, que há momentos simples que valem por todas as buscas perdidas da vida. Tive a sorte de ter descoberto através da necessidade mais básica de existir, uma forma serena de desfrutar. Continuo a acelerar em quase tudo, no tempo que roubo ao sono, às filas de trânsito, nas pequenas transgressões, a encurtar nas conversas redondas, a dispensar nas pessoas insípidas, mas quando me sento à mesa, ou quando seguro um bom tinto nas mãos, volto a ser aquela menina pequenina que não envelhece.

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