Colo demorado

foto polaroidSe procurasse nos álbuns, com sorte, talvez encontrasse uma foto enternecedora de um pai vintage com calças à boca de sino, camisa cintada de golas pontiagudas e uma criancinha loira com chapeuzinho de elástico na cabeça, sapatos ortopédicos e meias pelo joelho, que seria eu. Depois, punha uma legenda amorosa e era tudo mentira, porque um pai não se forja numa Polaroid, forja-se na presença dos dias, no impulso do carinho, na constância, no temperar da impaciência, na resiliência, na perspectiva de um futuro e no colo demorado. Não tive essa sorte, tive outras. O meu pai, da pasta só tinha o título. E como respeito o sentido etimológico das palavras desde que tinha idade para estar ao colo de um pai, passei a chamá-lo “Senhor”.
Que me perdoe o Senhor lá de cima que apesar de também aparecer pouco, dizem que quando dá os ares da sua graça, faz milagres. Sabia o que era um pai e tive um avó que desejei com muita força que tivesse o cabelo mais escuro para fazer as vezes de pai. Fiz me pessoa sem essa figura e não dramatizo, mas quando era criança, dava por mim a pensar qual seria o critério em falta para coxear como filha, pensei que isso estava lavrado no código das relações e quis denunciá-lo por incumprimento, mas o amor não se oferece a penas e cresci assim, forjando-me como sabia no amor a mim mesma. Mas vocês não loirinhas. Vocês tiveram a sorte de ter um pai à altura dos sonhos que tive para mim. E hoje quando dou por mim a invejar a forma voraz com que soletram Pai, dou por mim a pensar que o vosso amor próprio tem a dose certa do amor do pai e do amor desta mãe que recolhe muitas vezes ao quentinho do vosso colo para matar as saudades de uma fotografia que nunca conseguiu encontrar.

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