Celeste

A Celeste nunca gostou do nome que lhe deram. Nem da casa onde cresceu, nem do curso que tirou, do emprego que tinha e do homem com quem escolheu casar. Como não podia ter filhos, não chegou a desgostar de os ter. Mas tinha um certo desgosto nisso.

Um dia ofereceram-lhe um cão, que ela não queria, de uma raça que não gostava, e ela deu-lhe um nome que nunca adorou: Celeste.

Como seria de esperar, gozaram-na, por dar ao cão, um nome semelhante ao seu.

Mas a ela, dava-lhe um certo gozo profético, passear a cadela pelo bairro que desdenhava, repetindo um nome igual ao seu.

Como não era dada a grandes convívios, nem especialmente afoita no que concerne às questões da amizade, retirava especial prazer, quando lhe perguntavam o nome da cadela no parque, e ela respondia: – Celeste. 

Como se de uma forma involuntária, isso lhe permitisse, dar-se a conhecer.

A Celeste, pessoa, usava o cabelo espesso, rente à cabeça, para não permitir a revolta dos caracóis que teimavam na governância de uma nuca lisa. “Quem manda aqui sou eu”, dizia todas as semanas, enquanto perscrutava a cabeça ao espelho de tesoura na mão.

A Celeste não era velha, nem nova, tinha a idade certa, para detestar crianças e não ter grande paciência para velhos. A natureza consolava-a tanto, quanto a televisão a aborrecia.

Gostava de ler, mas sem grande deslumbramento pela literatura. Tinha por teoria que os livros não deveriam ter a arrogância de um título, porque isso condicionava a leitura da obra. Para Celeste, os livros deviam ter apenas uma sinopse no verso e uma capa em branco. No final da leitura, deveria ser o leitor a decidir o titulo, e desta forma, a obra pertenceria sempre mais a quem a lê. Não gostava que todas as coisas tivessem nome.

E não sabia o nome que se dá a um infinito de coisas.

Só conversava com o marido. Chamava-se “Qualquer coisa” e era músico. No fundo, ele não fazia mais que ouvi-la, repetindo-se, filosofando sobre o atrevimentos dos homens e a sua insensatez na catalogação excessiva de tudo. Mas para o “Qualquer coisa” eram apenas acordãos de fundo, menos musicais, que acolhera na sua vida, como quem vive em permanência com um zumbido nos ouvidos.

De tanto se passearem, Celeste, pessoa, até se permitiu gostar da Celeste, cadela. Um amor de engenho e de interesse, adubado numa estreita necessidade mútua, que dava pelo mesmo nome: Celeste. Tão mais transparente que a arrogância do título de tantos livros.

Um dia, Celeste decidiu soltar-lhe trela, e a cadela nunca mais regressou. Passou uma semana a escrever o seu nome em folhas de papel, lambendo os postes do bairro que desdenhava, colando nos portões dos vizinhos que nunca quis conhecer, chamando-se em voz alta nos parques, nas ruelas e avenidas.

Passaram-se meses, convencida que a cadela jamais voltaria; a Celeste, pessoa, regressou a casa, encostou-se ao ombro do “qualquer coisa”, rasgou a capa do livro que lia e decidiu deixar crescer o cabelo.

Comments

comments