Contos da Quarentena

O Conto da imprudência

Porra! Porra! Porra! Ventilava mais agora, do que alguma vez sonhará ventilar em prazer.

E a Vanda? O que faria com a Vanda?

Porra para a mulher que continuava aos pés da cama, vestida apenas com as calças de pijama, com aqueles auriculares sem fios, espetados nos ouvidos, como se fossem duas otites modernas, convertidas num mioma externo e branco.

O que diria à mulher? Agora que selaram a porta da morada errada.

O que é que lhe diria quando ligassem para o hotel e não o encontrassem no quarto hoje, amanhã e depois?

Pegou nos cigarros. Não tinha varanda no quarto. Porra para os detectores de fumo, para os quartos assépticos de hotel, para as noites pagas com o cartão da empresa, para os baús de lixo cilíndricos, das casas de banho com pedais para anões, para as folhas impressas do room service com letra a mendigar lupa, para a falta de tomadas junto às cabeceiras, para os interruptores sem legenda, em paredes avulso que nunca acendem o foco certo. Porra para a Vanda.

Para aquele abanar de cabeça. Como é que conseguia cantarolar nesta situação?

Como se nada fosse ou não fosse nada.

Como se metade do mundo já tivesse sido domado nas notas que tinha no bolso e a outra metade lhe cantasse ao ouvido. Que pateta fora. Que mania triste esta, de levar estranhas para o quarto para conversar. Apertava o maço na mão. Não tinha varanda no quarto, tinha uma Vanda e queria fumar. 

Como é que explicaria à mulher que estava fechado no quarto com uma mulher?

Como é que lhe diria que tinha fome de conversas com estranhos. Que traição teria lugar quando se trocam beijos por perguntas e dissertações por carícias? O que diria a mulher dos monólogos interruptos, das questões metafísicas e de um punhado de poemas lidos em voz alta?

Não interessava se era Vanda ou Maria, tanto lhe fazia, se queria apenas que o escutassem. Nunca dormira com nenhuma delas, adormecera apenas, como fazemos em viagens solitárias sobre ombros tombados de outros estranhos. O acordo era esse. Companhia.

Diria a mulher, que era o mesmo acordo que os unira quando casaram. Nunca o perdoaria.

Mas o silêncio dos dias tomou conta da poesia. A casa passou a ser o centro do repouso, deixou de ser o centro da criação. Não seria apenas pelas viagens sucessivas. Não sei. E as rotinas? Não interessa falar nas rotinas, porque é um pressuposto que elas se repitam. Como as Vandas e as Marias. São esquemas de sobrevivência, para que tudo em nós permaneça, ou para que demore a morrer dentro de nós. Eu disse-te quando éramos mais novos que precisava de poesia. Dizia-te todas as noites e tu rias. Tonto, dizias. Tonto. Pedia-te que nos olhássemos nos olhos, para alem da retina, pedia-te que falássemos, precisava de pensar sobre o mundo, connosco lá dentro e para além de nós. Primeiro, calavas-me com beijos, depois com palavras e depois foi o silêncio que nos calou. E agora eu queria calar a Vanda e o tempo, para cuidar das palavras que te vou dizer. E não consigo.

Acendeu o cigarro. Fumou e fumou até o alarme soar e o quarto ficar inundado de uma chuva ténue. Fechou os olhos e continuou a dar passa(o)s no vazio do cigarro molhado.

Tonto. Dizias. Tonto. Mas na altura tu rias.

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Celeste

A Celeste nunca gostou do nome que lhe deram. Nem da casa onde cresceu, nem do curso que tirou, do emprego que tinha e do homem com quem escolheu casar. Como não podia ter filhos, não chegou a desgostar de os ter. Mas tinha um certo desgosto nisso.

Um dia ofereceram-lhe um cão, que ela não queria, de uma raça que não gostava, e ela deu-lhe um nome que nunca adorou: Celeste.

Como seria de esperar, gozaram-na, por dar ao cão, um nome semelhante ao seu.

Mas a ela, dava-lhe um certo gozo profético, passear a cadela pelo bairro que desdenhava, repetindo um nome igual ao seu.

Como não era dada a grandes convívios, nem especialmente afoita no que concerne às questões da amizade, retirava especial prazer, quando lhe perguntavam o nome da cadela no parque, e ela respondia: – Celeste. 

Como se de uma forma involuntária, isso lhe permitisse, dar-se a conhecer.

A Celeste, pessoa, usava o cabelo espesso, rente à cabeça, para não permitir a revolta dos caracóis que teimavam na governância de uma nuca lisa. “Quem manda aqui sou eu”, dizia todas as semanas, enquanto perscrutava a cabeça ao espelho de tesoura na mão.

A Celeste não era velha, nem nova, tinha a idade certa, para detestar crianças e não ter grande paciência para velhos. A natureza consolava-a tanto, quanto a televisão a aborrecia.

Gostava de ler, mas sem grande deslumbramento pela literatura. Tinha por teoria que os livros não deveriam ter a arrogância de um título, porque isso condicionava a leitura da obra. Para Celeste, os livros deviam ter apenas uma sinopse no verso e uma capa em branco. No final da leitura, deveria ser o leitor a decidir o titulo, e desta forma, a obra pertenceria sempre mais a quem a lê. Não gostava que todas as coisas tivessem nome.

E não sabia o nome que se dá a um infinito de coisas.

Só conversava com o marido. Chamava-se “Qualquer coisa” e era músico. No fundo, ele não fazia mais que ouvi-la, repetindo-se, filosofando sobre o atrevimentos dos homens e a sua insensatez na catalogação excessiva de tudo. Mas para o “Qualquer coisa” eram apenas acordãos de fundo, menos musicais, que acolhera na sua vida, como quem vive em permanência com um zumbido nos ouvidos.

De tanto se passearem, Celeste, pessoa, até se permitiu gostar da Celeste, cadela. Um amor de engenho e de interesse, adubado numa estreita necessidade mútua, que dava pelo mesmo nome: Celeste. Tão mais transparente que a arrogância do título de tantos livros.

Um dia, Celeste decidiu soltar-lhe trela, e a cadela nunca mais regressou. Passou uma semana a escrever o seu nome em folhas de papel, lambendo os postes do bairro que desdenhava, colando nos portões dos vizinhos que nunca quis conhecer, chamando-se em voz alta nos parques, nas ruelas e avenidas.

Passaram-se meses, convencida que a cadela jamais voltaria; a Celeste, pessoa, regressou a casa, encostou-se ao ombro do “qualquer coisa”, rasgou a capa do livro que lia e decidiu deixar crescer o cabelo.

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