AS PRAGMÁTICAS

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Ontem falei da velhinha rezingona do lance de escadas.
Hoje falo-vos do meu balneário de ginásio, onde encontro ocasionalmente um grupo de senhoras de 60/70 anos ainda cheias de vapor da hidroginástica e que ocupam todo aquele cantinho onde me visto. Ainda não lhes fixei o horário mas cada encontro é um compêndio.
Sem que percebam, remexo e remexo no meu cacifo para poder demorar-me entre esta fabulosa alcateia. Revejo-me nelas, imagino-me igual, desempoeirada e feliz, revendo os meus episódios recentes enquanto puxo as meias de vidro.
A minha avó não tinha a mínima graça comparada com estas jovens de aspecto idoso.
Dizia uma delas a propósito dos netos:
– Sou professora de desenho. E quando o meu neto de cinco anos me vem mostrar um desenho com 3 linhas a dizer que é um pássaro, eu digo-lhe logo: “Querido neto, 3 paus não fazem uma avezinha.”
O riso foi colectivo.
A mais ternurenta delas, responde:
– É só uma criança. Devias dizer-lhe que estava bonito.
O que seria!- responde, levantando-se. – Não concordo com o elogio da mediocridade. Esta mania, que agora os pais têm de enfeitiçar de elogio a mínima criação dos filhos, com medo de estrangular um Picasso, arrepia-me. Se o meu neto tivesse jeito, elogiaria. Como elogio quando faz construções de legos, torres altíssimas com pontes içadas. Para isso o miúdo tem muito jeito. Agora desenho, não tem nem jeito, nem vontade.
A mãe disse-lhe para ficar ali entretido, contra a vontade, a desenhar uns rabiscos, para a seguir o manda vir dar à avozinha. – E continuou:
Nem o miúdo queria pintar, nem eu. Lá por ser uma avó enternecida, não tenho que perder a capacidade de distinguir o bom do mau, e o talento da vontade. Comigo não embarcam nisso. Querem a minha opinião dou-lhes a verdade. Amo o meu neto mas disse-lhe mesmo à boca cheia:
– “Com três paus não se faz uma avezinha! Querido, isto não é nada…”

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