À pinha de bolivianos

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Arranjamos o passeio ao Deserto do Salar de Uyuni em Tupiza, a segunda terra em que paramos, depois de atravessar a fronteira da Argentina com a Bolívia.
Tupiza também era uma cidade onde valia a pena gastar tempo, mas as distâncias entre pueblos são longas, as estradas são más e os horários dos autocarros são escassos e incertos. Ainda deu para conhecer o mercado, a estação de ferro, dar umas voltas às praças, e beber umas cusquenas à beira estrada a contemplar as casinhas coloridas, com toque colonial, enfiadas entre cordilheiras de perder de vista. Depois da travessia do deserto, no melhor dos sentidos, tínhamos que nos por a caminho de Potosí, a cidade mais alta do mundo. Outra jóia da coroa boliviana, povoada de milhares de igrejas, com uma arquitectura colonial proeminente e uma geografia de se tirar o chapéu. Desta vez, abdicamos do conforto de um guia, do jipe só para nós e enfiamo-nos em Uyuni, num autocarro boliviano a caminho de Potosí. Nem sei classificar a viagem, o autocarro estava à pinha de bolivianos, não querendo ser indelicada com um povo tão colorido, a verdade é que o odor humano tendia para o mau, a muito mau. Tínhamos lugares sentados, mas à nossa volta iam-se avolumando pessoas, muitas pessoas, muita saia rodada de folhos, muita senhora de trança, muitos chapéus, muitas caixas de ovos, muitos sacos, muitas mãos, muitos rabos, muitos cheiros. Ouviam-se dialectos entre línguas, diálogos indecifráveis, o calor instalava-se à medida que a massa humana de gente ia compactando o autocarro. Arrancamos com um vómito de escape, os corpos agitaram-se, e a marcha iniciou. Já não me lembro quanto tempo era suposto demorar a viagem, nem o tempo real que demorou. No percurso o autocarro avariou mais de dez vezes, obrigando o condutor e o ajudante a travar o autocarro à beira de ravinas, penetrar no motor, e a custo, do grito agitado da populaça irritada, prosseguir viagem. Quando começamos a perceber pelo olhar descrente das gentes que não iríamos chegar a tempo, quando já sufocávamos de calor, de fome, e o mau cheiro já era o odor regular, decidimos que saltaríamos fora na próxima ravina. Iríamos rezar pela complacência de uma boleia e seguir viagem. E assim foi, no soluço seguinte do “colectivo” saltamos fora, com mais de uma dezena de bolivianos que seguiam connosco. Bloqueamos a estrada, à sua vez, cada um de nós acenava para um qualquer meio de transporte que passasse. Lá apareceu na curva uma carrinha de caixa aberta. Parou e saltamos lá para dentro, ajudando-nos uns aos outros com pesos e mochilas. Nunca tive tanto frio, como aquele que experimentei na carrinha de caixa aberta. Enrolada na manta polar, confiscada ilegalmente no colectivo de Buenos Aires para Puno, os meus olhos latejavam, o nariz pingava, e a cabeça parecia província autónoma de um corpo enregelado, e desgovernada por completo, girava como um cata-vento em dia de tempestade, a tentar acompanhar o desenho das curvas dos vales e das montanhas, daquela que é a cidade mais alta do mundo.
Uma senhora boliviana, a quem tinha ajudado a carregar o filho para dentro da carrinha, ainda me cedeu a ponta do cobertor com que cobria a criança, para que me protegesse do frio, mas não chegava. Acho que nunca fiquei tão feliz por chegar a um sitio, como quando vimos a entrada de Potosí, a terra prometida, aquela que em tempos foi o centro nevrálgico da Bolívia, e um dos maiores produtores de prata da América Latina.
O resto, foi vinho tinto aberto por um médico argentino, uma bebedeira em 5 minutos fermentada na altitude, um banho de água quente, um sono reconciliador e um autocarro de madrugada para a Ilha do Sol. E aqui, começava finalmente o trilho da rota Inca. Para nós, na verdade, o espírito da rota inca já tinha começado, assim que descemos do primeiro autocarro em Buenos Aires.

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