A lua é como nós

IMG_0015_1832 Acredito muito que “SER” é ser no outro. E isto não é uma desculpa para não estar só, sozinho ou mal acompanhado. Não me consigo encontrar quando me isolo e não revejo nenhum episódio que tenha sido relevante no meu crescimento que não tenha sido provocado, acompanhado ou vivido com outros. Tenho uma memória que não vive só e uma predisposição para estar na rua que chega a ser quase um vício. Só me isolo para trabalhar, mas mesmo aí, tenho a música e a luz do trabalho que há-de ser gente nas mãos e nos olhos dos outros. Não tenho grande respeito pela solidão, acho a cruel, cicerone das dores, rainha das más decisões. A solidão é uma experiência que só se deve viver em Alta, quando a cabeça está plena, quando nos curtimos, quando a visão de nós mesmos e um livro tem o colchão de suspiro bom, quando o zapping é apenas um exercício de bíceps e, nunca uma extensão da nossa inquietude, nem quando a voz de uma chamada perdida chega como um consolo na noite. Para mim, a solidão deve ser sempre uma condição voluntária, um espaço para recuperar fôlego e energias, retemperar esforços e ponderar novas investidas, a solidão deve estar balizada e circunscrita a um espaço e a um tempo que dominamos. E deu-me para escrever isto, porque há dias que este sem abrigo dorme debaixo da minha janela. É um homem novo e, dizem que se tem tudo na juventude, e este homem dorme horas a fio, e sempre que passa alguém acompanhado em amena cavaqueira ele destapa a cabeça e escuta, deixando que o próximo sono seja embalado pelo diálogo que acaba de ouvir. Talvez no sonho ele participe nas histórias que ouve e a solidão se veja excluída de lhe zelar o sono até à madrugada, porque aí, o sol nasce e ilumina tudo e na noite, a lua é como nós, um ponto que brilha no meio do escuro.
Boa noite.

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