20 horas de autocarro

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A última vez que tinha feito uma viagem de autocarro das grandes, atente-se à proporção da pessoa pequenina (vulgo criança), inserida num determinado tempo e contexto, tinha sido no colégio num passeio a Fátima:) Nada que se compare a 20 horas dentro de um autocarro. Aqui confesso, a minha total inexperiência. Valeu-nos a Mariana que, vive na Argentina e que tinha tudo pensado. Estávamos as quatro instaladas no andar superior do autocarro, encostadas ao vidro traseiro nuns cadeirões rebativeis. Regra número 1: Convém que o lugar do sono, esteja o mais longe possível, do das necessidades. Que, como devem imaginar, em menos de duas horas e meia de pista já tem um cheiro, idêntico ao de um lavabo mal amanhado de posto de abastecimento. Quando percebi que o percurso pela Bolívia e o Peru, envolvia horas largas de autocarro, imaginei de imediato uns vagões redondos, coloridos, com rodas grandes sobre suspensões abatidas, imaginei os bancos coçados do tempo, as famílias com instrumentos musicais, as cestas de verga empinadas nos suportes de bagagem, imaginei ainda que nas pequenas janelas de escotilha conseguiríamos antever da estrada, os focinhos ansiosos de pequenos suínos que viajariam connosco, somei-lhes as galinhas em caixas de plástico quadradas presas por atilhos de ráfia, as mãos queimadas da malta do campo, as penas das aves a encher o ar, rostos indígenas, o cheiro das caixas improvisadas de comida e altas fotografias, que fariam as delícias de um viajante disposto a tudo. Nada disso: Banco de pele rebatido até à conversão em cama, 3 refeições completas, televisão e wifi. Estamos há quase 14 horas dentro do autocarro, já dormimos umas oito e não tarda, chegamos ao nosso 1º destino, Salta. Uma província do noroeste argentino, situada no Vale de Lema, a cerca de 1187 m de altitude. Aí, algures entre o vale e a cidade, apanharemos um autocarro que assentará como uma luva na minha profícua imaginação.

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