“UMA CASA NUM ESCRITÓRIO”

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Já há alguns anos que não trabalho por conta.
Trabalho para contas.
Não tenho que levar com as flutuações de humor do chefe, nem com as oscilações temperamentais dos colegas do lado. Mas passo a vida no banco on-line a conferir transferências. Não tenho que simular sorrisos amarelos para aquele cromo que insiste em projectar-se na tua sombra, fazendo luz das tuas ideias. Nem preciso de ir tirar um café para concluir uma conversa parva num chat do whatsapp, ou fugir para a casa de banho para mandar uma selfie atrevida. Mas também, não sei das últimas pelos últimos, nem tenho grupetas divertidas de corredor. E mais, não tenho que andar engomada porque a minha imagem só reflecte no espelho da minha casa de banho, não preciso de trocos para as maquinas de “vending” e posso enfrascar-me em cafés, contando que tenha cápsulas. Nos dias mais tenebrosos, posso manter o pijama, ouvir música melancólica aos altos berros e fumar um cigarrinho manhoso em frente ao ecrã. Mas há sempre o seu “q” de solidão em tudo isso. Tenho a sorte do meu trabalho implicar pessoas e saídas constantes. Tenho a minha assistente que trabalha escondida no computador à minha frente e a Fátima que passa cá umas horas a ajudar na lide da casa. De resto, só batem à porta por engano ou os correios. Já me passou pela cabeça alugar um escritório, partilhar um cowork, dividir um estúdio. No principio duvidei da minha capacidade em trabalhar em casa. Imaginei me a bezerrar no sofá, refastelada de livros, televisão ligada às 11h e torradinhas no prato ao alcance de um braço deitado. Mas isso era quase impossível, não tenho feitio sequer para permanecer na cama depois de acordada, mesmo quando estou no scroll do Instagram. Acordar é viver. E viver para mim, salvo a excepção dos prazeres confinados à cama, implica uma certa verticalidade. Depois de levar as miúdas à escola, arranco para o ginásio, do ginásio para o escritório e depois é obedecer à agenda dinâmica do dia. Não me levanto a meio da manhã para fazer tostas mistas e quando tiro um café bebo-o bem à frente do monitor. As pausas para o almoço têm o mesmo ritmo das cantinas das multinacionais, com a diferença que posso ir ao meu frigorifico sacar uma mini e desenrascar umas gomas da dispensa para a combustão dos açucares.
Mas acabo por ser muito disciplinada. E muitas vezes, rio-me com a Ângela (a minha assistente) pelo tempo que demoramos entre a vontade comunicada de ir à casa de banho e a hora que nos levantamos efectivamente para aliviar.
É a escola do tempo comprimido que comanda a agenda do dia.
E mesmo solta dos aguilhões dos patrões e dos olhares ambiciosos dos colegas menos colegas, acabo por me impôr um regime de horas de trabalho que ultrapassa na sua maioria as 8 horas obrigatórias por lei. Talvez aí, mais do que nunca se faça sentir a expressão “sentirmo-nos em casa”. Saber bater a porta do escritório torna-se imperativo e dominar a tentação de ir “teclar mais um bocadinho”, uma necessidade soberana. Sem fazer essa aprendizagem, corremos o risco de passar a viver num escritório em casa, em vez de vivermos num casa que tem um escritório.
*http://gerireliderar.com/uma-casa-num-escritorio/

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