Tenho uma amiga que nunca disse: - Amo-te.

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Tenho uma amiga que nunca disse: – Amo-te.
Até aqui, nada de anormal, se assumirmos que nunca teve o privilégio de sentir essa emoção, mas não é o caso. A minha amiga já amou, ama de momento e engasga-se só de pensar ao de leve, na verbalização destas duas palavras.
Eu sei, porque a conheço como ninguém, que parte do seu silêncio veio a reboque de uma família numerosa, pouco dada à expressão de afectos. Mas como ela acha, que é uma durona, recusa-se a aceitar a legitimidade que lhe assiste: A família disfuncional, a orfandade sentimental e a origem do mal. O problema é que ela sofre com isso, o mais longe a que se atirou numa relação chegou a um: -curto-te! Mal balbuciado e enviado por sms.
Quando chegaram os iphones e o teclado emoji, a sua vida sentimental ganhou um suplemento vitaminico, e como quem se esconde atrás de uma máscara: ela desatou a enviar smiles, assobiando corações, bonecos de mãos dadas, macaquinhos tapa os olhos e toda uma panóplia de cliparts, que serviram durante meses, como entrada a uma refeição que tarda a ser servida. Mas aquele aperto do olhar a dois, a mão entrelaçada e a música que chega ao fim, o silêncio a abrir mãos…e ela, nada….o olhar, que de paixão passa a pena, de pena a clemência, e sempre nesta sequência. A minha amiga, a quem já aconselhei que bebesse, diz que o temor pelas palavras é tanto, que lhe devolve a sobriedade ao corpo.
Já tentou na surdina da noite, dizer-lhe junto ao ouvido, e acaba sempre a dormir com a cabeça cheia das palavras que não consegue dizer.
Diz-me com tristeza, que o que mais lhe custa é que lhe digam:
que quando se ama, se fala.
E que quem sente, não cala.
Porque ela diz que sente.
E sente que quando cala,
não é gente.

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