Tasca peruana

IMG_0105_3271 Há uma tasca peruana em Alfama onde me perco.
É para lá que fujo, quando o email encrava, quando as edições empenam ou simplesmente quando já não suporto a sensação de me encontrar sem céu há muito tempo.
É perto de onde moro, pequenina e despretensiosa, com mesas de madeira coloridas e bancos de madeira altos.
A rua é estreita e as mesas empinam-se entre os passeios curtos e as portas vizinhas. O Eduardo e a Maria são os donos felizes que gerem este espaço. Comecei por ir lá ao final do dia beber uma ginjinha, das que se recomendam, depois acrescentei a salada de bacalhau com grão, o copo de branco, os ovos com farinheira e o Pisco sour. Ao princípio, levava o iphone no bolso e meia dúzia de moedas, somei-lhe o caderno e a caneta, e hoje já trato o espaço como uma extensão da minha secretaria, convencida que me encontro num pedaço de “montparnasse” lisboeta e levo para lá o portátil, para ver se o ambiente aconchegante faz brotar “o”romance.
A rua é movimentada, as personagens de Alfama parecem saídas da literatura russa e a minha cabeça hesita entre as teclas que já se conhecem e as pessoas que desfilam. Se for a ver bem, só lá escrevi meia dúzia de linhas tímidas que não chegam para rivalizar com as ginjinhas que saboreei. Não há literatura sem boémia, nem romance sem observação por isso, prolongo, contemplo, relaxo e percebo, o quanto me fazem falta sítios destes, onde o despertar simultâneo dos sentidos e a abstinência da obrigação são recreio e eu posso ficar assim quieta, como um adulto irresponsável num jardim, só a ver, os filhos dos outros a brincar.

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